Choque entre ecossistemas, para rir
Ainda que de tempos para cá os calendários escolares andem desencontrados e com novos (e mais apertados) regimes de férias, julho será sempre sinônimo de diversão longe dos pátios e das quadras dos colégios. Um tempo em que as salas de exibição podem ser frequentadas em pleno meio de semana imaginem que ótima opção, e sem nenhuma culpa! E para engrossar as filas, já bem crescidas no vácuo de ''Carros'', chega hoje ao território nacional outra aposta hollywoodiana entre os quase sempre irresistíveis apelos desta nova era da animação controlada com mãos de fada pela engenharia computadorizada.
''Os Sem-Floresta'' (confira a programação de cinema, na página 2) é apenas mais capítulo um bom capítulo, acrescente-se na feroz rivalidade entre os estúdios que hoje trabalham com o gênero. Este título da DreamWorks, mais sério concorrente diante da intemporalidade conservadora da Disney e sua fusão com a genial Pixar, recupera em grande parte o melhor daquele ânimo irônico e brincalhão de ''Shrek'', e faz esquecer algumas das decepcionantes tentativas posteriores.
Dizem que o homem é o único animal que não come para viver, mas que vive para comer. Pois bem, as criaturas da floresta que estão neste filme compartilham esta idéia com a nossa espécie. Ou pelo menos começam a se tornar tão consumistas como nós quando começam a urbanizar seu habitat natural, com direito a todo tipo de tentações, desde guloseimas até jogos. É claro que, para usufruir destas delícias, os animais terão que fazer valer todo o engenho e, claro, empreender uma guerra contra seus novos vizinhos, os invasores humanos.
Este é o ponto de partida da nova comédia de animação em 3D, dirigida pela dupla de estreantes Tim Johnson e Karey Kirkpatrick, realizada a partir de uma história em quadrinhos carregada de fina ironia e sarcasmo crítico idealizada por Michael Fry e T. Lewis. Fica evidente, desde o início, que houve um bem sucedido esforço em criar humor não apenas para crianças, mas também para adultos, combinação aliás que tem engrossado, e muito, as bilheterias ''animadas'' mundo afora.
Entre os personagens quadrúpedes, logicamente os mais charmosos em cena, estão o oportunista e cheio de idéias R.J. (dublado por Bruce Willis na versão original), a sábia tartaruga Verne e outros que passam a infernizar o outro lado da cerca, onde os humanos construíram o condomínio Rancho Camelot. As incursões ao lado dos humanos não serão um mar de rosa, já que os bichos devem lidar com a terrível presidente da comunidade, além de um exterminador especialmente contratado para acabar com a bicharada. E ainda, entre os próprios animais, há um urso ameaçador.
O choque entre ecossistemas antagônicos, entre criaturas da floresta e humanos, entre sobreviventes e consumidores, entre a lógica natural e os despropósitos da civilização, tudo resulta em estupenda fórmula para contrastar o dramático e o cômico. A lamentar apenas na ótima narrativa alguns parênteses musicais que colocam um freio discordante na contundência da ação. No mais, é curtir muito esta aventura abusada e cheia de encantos. (C.E.L.J.)





