Janete El Haouli
Especial para a Folha2
O Recital Chopin realizado na última quarta-feira, no Cine-Teatro Ouro Verde de Londrina, como parte da programação artística do 19º Festival de Música de Londrina contou com a participação de Glacy Antunes de Oliveira, Olga Kiun, Vanya Ellias-José e Zygmunt Kubala. Foram interpretadas as seguintes obras do pianista e compositor polaco, de origem francesa, Frederic-François Chopin (Varsovia, 1810 - Paris, 1849): ‘‘Sonata para violoncello e piano em Sol Menor, Opus 65’’; ‘‘12 Prelúdios Opus 28’’; ‘‘2 Noturnos Opus 27’’ e ‘‘Balada nº 4, Opus 52’’.
Perguntamos para algumas pessoas presentes ao Recital Chopin: por que você toca e ou escuta Chopin hoje, 150 anos após sua morte e no final do milênio?
E as pessoas respondem: ‘‘porque é bom para minha alma’’, ‘‘porque me harmonizo espiritualmente’’, ‘‘porque me identifico com o romantismo’’; ‘‘porque sou romântica’’; ‘‘porque me identifico com estas melodias’’; ‘‘porque esqueço um pouco do mundo violento e caótico que vivemos hoje...’’; ‘‘porque ressalta meu lado romântico’’; ‘‘porque gosto’’; ‘‘porque flui...’’; ‘‘porque é poético e lírico’’; ‘‘porque é piano...’’; ou simplesmente ‘‘porque é Chopin’’.
Em seus conturbados 39 anos de existência e 150 anos após seu desaparecimento, músicos do mundo todo interpretam as obras de Chopin. Talvez seja interessante pensarmos um pouco a respeito para que cada um de nós possa individualmente entender esta relação. O melodismo de Chopin tem conquistado uma enorme popularidade no mundo todo pela acentuada comunicação de suas melodias. Porém, é preciso ressaltar que este melodismo trata-se apenas de um envoltório que encobre uma complexa construção musical.
O ouvinte mais sensível e atento deverá ser capaz de perceber, para além de uma visão e escuta superficial, a elaboração e densidade harmônicas, o requinte das melodias, a peculiaríssima e expressiva sonoridade, a alta dramaticidade, as inovações formais e a escritura pianística verdadeiramente original. O virtuosismo, em Chopin, nunca é gratuito, existindo a serviço de uma intenção musical.
Pelo sentido da visão sempre podemos observar grande parte dos movimentos e da reação das pessoas ao escutar música. Alguns inquietos, outros tossem ou dormem ou retiram-se e alguns outros escutam! Em nosso relacionamento com a arte da música, sabemos que o ponto central é o sentido da audição, da escuta, e que exige a nossa atenção introspectiva.
A escuta é um voltar-se para dentro, para o escondido - olhar interno através do qual a mente pode exercitar suas próprias sensações. Neste sentido e com esta disposição, escutar música pode significar experienciarmos uma nova atitude face à música. Um possível revigoramento de nossa sensibilidade sonora.
Basta nossa disposição interna e prestarmos atenção em nossa atenção. Um momento de introspecção. Sentimento este, complicado de se viver nos dias atuais. A completa simbiose de Chopin com o piano levou-o a dizer que ‘‘o piano é meu outro eu’’. Uma simbiose que muitos músicos e ouvintes românticos deste final de milênio ainda procuram ou tentam experimentar.
No Recital Chopin, pudemos escutar a interpretação de quatro músicos cuja compreensão e identificação com o universo romântico, especificamente chopiniano, ficaram evidenciadas em cada um deles de maneiras distintas ao público lá presente.
A musicista Janete El Haouli comentou o recital Chopin a pedido da Folha2

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