Pela primeira vez na história o Nobel de Literatura vai para a língua com mais falantes no planeta: o mandarim, principal dialeto chinês. ‘‘Foi uma surpresa. Minha vitória é um milagre’’, resumiu o ganhador do prêmio, Gao Xingjian, quando recebeu a notícia ontem pela manhã, em Bagnolet, subúrbio de Paris, onde vive.
Aos 60 anos, ele concilia as atividades de romancista, dramaturgo, tradutor, diretor, ensaísta, cenógrafo e artista plástico. Também dá concertos de violino.
Os trabalhos de Xingjian - que recebe o prêmio pelo conjunto de sua obra - não podem ser lidos pelos seus 1,25 bilhão de conterrâneos. Radicado na França desde 1988 e naturalizado francês, o escritor tem seus livros banidos na China.
Mesmo a notícia da vitória do primeiro Nobel de literatura chinês não havia sido divulgada nos meios de comunicação do país até o fechamento desta edição.
Opositor ferrenho do governo chinês, Xingjian saiu formalmente do Partido Comunista depois do massacre da praça da Paz Celestial, em 1989.
‘‘O terror reina na vida cotidiana chinesa. É um terror que sufoca a consciência humana e que destrói o povo’’, opinou o escritor sobre a atual situação política chinesa, em entrevista para a rádio francesa France Info.
Xingjian, que ainda escreve toda sua obra em mandarim, diz que sentiu esse ‘‘terror’’ de muito perto. Em 1976, por exemplo, o próprio autor foi forçado a queimar os originais de alguns de seus escritos.
Seus primeiros livros só foram publicados depois que o escritor conseguiu sair do país pela primeira vez, em 1979.
E a situação de Xingjian piorou muito a partir de então. O autor foi uma das principais vítimas da campanha contra a ‘‘contaminação espiritual’’ lançada na China em 1983 para limitar ‘‘excessos da influência ocidental’’.
Nesse mesmo ano, o autor havia encenado no país a peça ‘‘Ponto de Ônibus’’, pioneira do chamado teatro do absurdo na China. O trabalho foi proibido pouco depois da estréia, e suas peças não podem ser encenadas em território chinês desde 1987, quando foi censurada a primeira montagem de ‘‘A Outra Margem’’, estopim de sua decisão de sair do país.
A liberdade, paradoxalmente, é uma das marcas principais da literatura de Xingjian. Pelo menos na visão da instituição responsável pela escolha do vencedor, a Academia Sueca de Letras.
No texto com que tradicionalmente explica o motivo da entrega do prêmio, os acadêmicos suecos dizem que Xingjian ganhou os US$ 922 mil dados pela Fundação Nobel pela sua obra ‘‘de alcance universal, marcada por estalos de amargura e uma ingenuidade linguística que abriu novos caminhos para o romance e o teatro da China’’.
No mesmo artigo, lido ontem em Estocolmo pelo secretário permanente da Academia Sueca Horace Engdah, é ressaltado o ceticismo de Xingjian e o seu despojamento de qualquer tentativa de explicar o mundo.
A opinião é baseada principalmente no romance ‘‘A Montanha das Almas’’, considerada sua obra mais importante.
O livro, inédito em português, como toda a obra de Xingjian, é descrita como ‘‘uma peregrinação de um protagonista por sua individualidade e uma viagem pela superfície reflexiva que divide a ficção da vida e a imaginação da memória’’.
A obra é resultado de viagens que o escritor fez ao sul da China no início dos anos 80.
Nesse mesmo período, Xingjian se consolidou como o criador de uma nova forma de fazer teatro na China. Ele emendou características de autores ocidentais como Bertolt Brecht, Antonin Artaud e Samuel Beckett com técnicas tradicionais do Oriente.
O teatro de sombras, as máscaras e os tradicionais tambores passaram a dividir os palcos com tramas guiadas por conflitos existenciais.
Xingjian cria também os cenários de suas peças, assim como desenha a capa de seus livros (característica que divide com o vencedor do Nobel do ano passado, o alemão Gunter Grass).
Os trabalhos artísticos do intelectual chinês, sobretudo pinturas, já foram expostos em mais de 30 mostras internacionais.
Coincidentemente, suas obras foram expostas recentemente em uma mostra coletiva em Estocolmo, na Suécia. É lá que o escritor receberá a medalha de ouro referente ao Nobel, das mãos do rei sueco, Carlos Gustavo 16, no próximo dia 10 de dezembro.