Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Quando Chico Buarque lançou ‘‘Paratodos’’, veio-lhe a idéia de gravar os shows para um futuro CD ao vivo. O projeto naufragou porque as apresentações não acrescentaram muita coisa ao trabalho de estúdio. Engana-se, portanto, quem considera ‘‘Chico ao Vivo’’ – que chega às lojas na próxima semana – um embalo na ladeira da indústria fonográfica.
O novo CD registra um dos shows do disco ‘‘As Cidades’’ e é melhor que o trabalho de estúdio, em que Chico Buarque parecia menos inspirado. As músicas amadureceram, os arranjos melhoraram. Há releituras e temas que ele nunca havia gravado. ‘‘Chico ao Vivo’’ acrescenta muito a ‘‘As Cidades’’ e ainda traz, como é de praxe, um panorama da obra do compositor, sob pretexto das comemorações de seus 35 anos de carreira – que ainda vão render dois livros: um escrito pela jornalista Regina Zappa, que será lançado em novembro, e ‘‘Figuras do Feminino’’, da professora Adélia Bezerra de Menezes, do Departamento de Teoria Literária da USP.
Além disso, o álbum – duplo – é o registro de um show completo, inclusive com bis, gravado em abril no Palace, em São Paulo. Por isso ‘‘Chico ao Vivo’’ abriga os meandros de uma apresentação, refletindo momentos de ápice, declínios programados e a continuidade que permeia as faixas.
Os arranjos e a direção musical de Luiz Cláudio Ramos garantiram a unidade do espetáculo e embasam algumas releituras que o compositor fez da própria obra. Nesse ambiente, destaca-se uma banda com sincronia de relógio suíço. Composto por feras como Wilson das Neves – também um grande compositor – na bateria, Jorge Hélder no baixo, Chico Batera na percussão, João Rebouças no piano, Marcelo Bernardes no saxofone, Bia Paes Leme nos teclados e vocais e o próprio Luiz Cláudio Ramos no violão, o grupo traz um entrosamento fora do comum.
Com esse respaldo, Chico Buarque surge com a voz estreita – característica que aprendeu a trabalhar e reverter em marca registrada – em ‘‘Paratodos’’, faixa que abre o CD. Não há excessos, a contenção é uma das qualidades do compositor. Para benefício de quem ouve. As falas são curtas, a maioria se resume a um ‘‘obrigado’’ no final da execução. O comedimento não é resultado da timidez do músico, mas da experiência de quem não é fã de holofotes e evita exibicionismos.
O repertório do CD ‘‘As Cidades’’ está distribuído entre clássicos como ‘‘Construção’’ e ‘‘As Vitrines’’. Do disco de estúdio, faltaram ‘‘Você, Voc꒒, parceria com Guinga, e ‘‘Injuriado’’. Entre as mais manjadas, estão ‘‘Quem te Viu, Quem te V꒒, ‘‘Vai Passar’’, ‘‘Cotidiano’’, ‘‘Teresinha’’ e ‘‘Homenagem ao Malandro’’. Mas vale a pena ouvi-las pela enésima vez, pois parecem arejadas, livres de mofo e ácaros. As 28 faixas seguem-se prazerosas, sem períodos de sonolência.
As composições mais recentes também revelam qualidade. Se em ‘‘As Cidades’’ as músicas estavam mornas, ao vivo elas cresceram. É o caso de ‘‘A Ostra e o Vento’’, feita para o filme homônimo de Walter Lima Junior. A sensação se estende a ‘‘Assentamento’’, criada originalmente para o CD do livro ‘‘Terra’’, lançado em 1997 com textos de José Saramago e fotos de Sebastião Salgado. Chico Buarque está mais à vontade no palco, o show rodou o País e as interpretações ganharam segurança.
O mesmo ocorre com as canções antigas. ‘‘Cotidiano’’ – famosa na versão do álbum ‘‘Caetano e Chico Juntos e ao Vivo’’, gravado na Bahia em 1972 – há muitos anos não era interpretada pelo compositor. Agora reaparece em uma roupagem com belos arranjos de fundo. ‘‘Construção’’ também sofreu alterações. O clima tenso ganhou marcação incisiva do baixo de Jorge Hélder e fraseados de saxofone e flauta.
Chico Buarque aproveitou para gravar algumas canções em que aborda a feminilidade: ‘‘Sob Medida’’, ‘‘O Meu Amor’’ e ‘‘Teresinha’’, que não tinham registros na voz do compositor. Como intérprete, ele aparece na bela ‘‘Sem Voc꒒, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ‘‘Como se Fosse a Primavera’’, de Pablo Milanés e Nicolás Guillen, e ‘‘Capital do Samba’’, do bamba José Ramos, que encerra a apresentação associada a ‘‘Chão de Esmeraldas’’ – com letra de Hermínio Bello de Carvalho.
No bis, Chico Buarque canta ‘‘Futuros Amantes’’, ‘‘Vai Passar’’ e ‘‘João e Maria’’. O público, que até então participa como um coadjuvante comportado, resolve cantar junto. Surgem gritos deslumbrados de ‘‘eu te amo’’. Incomoda, mas não chega a ser constrangedor.
‘‘Chico ao Vivo’’ reproduz os motivos que levaram o show a ser tão bem recebido: músicos de primeiro time, arranjos competentes e interpretações de qualidade, em meio a um panorama da carreira de um dos mais importantes compositores brasileiros. Há espaço para temáticas e estilos diversos coordenados pela perspectiva criteriosa de um músico sem firulas. O álbum vai vender como água, mas está longe de ser caça-níquel.Chico Buarque traz boa performance em disco que chega às lojas semana que vem e reúne o repertório de ‘‘As Cidades’’ com músicas antigas
ReproduçãoChico Buarque gravou seu quarto disco ao vivo em um show no Palace, em São PauloMarcos Issa/DivulgaçãoChico Buarque: releituras da própria obra

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