ReproduçãoChico Buarque de Hollanda: ‘‘Para se escrever o que eu entendo como bom romance, o conhecimento de boa poesia é fundamental’’Chico via Internet

Chico Buarque responde a
perguntas dos fãs que
visitam seu site na Internet

Mauro Dias
Agência Estado
O site de Chico Buarque na Internet (www.chicobuarque.com.br) entrou no ar no início do mês passado e já foi visitado por 50 mil pessoas. Muitas delas têm aproveitado a chance para fazer perguntas ao compositor, que começou a respondê-las. As primeiras respostas - cerca de 50 - apareceram ontem no site.
A página de Chico Buarque contém dados biográficos, fotos, filmes, músicas, críticas, considerações gerais sobre a obra. O compositor continuará a conversar com os fãs e, na próxima semana, começa a ensaiar o show ‘‘As Cidades’’ (este é o nome de seu novo disco), cuja estréia vai ser no dia 6 ou 7 de janeiro, no Canecão, no Rio. Depois de um mês em cartaz no Rio e uma parada para o Carnaval, o show irá para São Paulo, em março.
Veja, abaixo, as respostas de Chico Buarque aos visitantes de sua página.
Acabei de ler o livro do Caetano, no qual ele conta o início do tropicalismo, a época dos festivais e, para minha surpresa, da rivalidade produzida e estimulada pela imprensa entre a turma ‘‘alienada’’ da Tropicália (Caetano, Gil ...) e a turma dos engajados (você, Vandré...). Como é que você sentia isso na época? Você acreditava no confronto ou, como Caetano, sabia que no fundo tudo era armação e que simplesmente eram artistas com visões e estilos diferentes? Teve mágoa? Queria muito saber do seu lado na história, porque fica claro que para o Caetano isso tudo pesou, incomodou.
Chico Buarque - Também achava e acho que havia muita hostilidade nas redações, mais que entre nós artistas.
A obra de seu pai lhe deu alguma contribuição na construção de seu repertório de letras de músicas e alguns livros?
Chico - Existe um rigor formal na escrita do meu pai que procuro não desmerecer, quando faço literatura.
Por que você parou por tanto tempo de gravar discos? Acabou a fonte de inspiração?
Chico - A fonte de inspiração não seca, mas vai ficando cada dia mais longe. Até chegar à fonte leva-se mais tempo. Mas no caminho a gente se diverte.
Por que você resolveu criar seu site?
Chico - A idéia de criar um site não foi minha, mas de um sujeito chamado Cachorrão. A criação é dele e da Casa Paulistana. Ainda não tive tempo de olhar direito o site, porque estou respondendo a este questionário.
Em primeiro lugar, obrigado por você existir, vida longa, com saúde e paz. Como professor de língua portuguesa (e literatura), sempre tive a curiosidade de saber que dicionários e gramáticas fazem parte de sua consulta habitual, quando você precisa esclarecer alguma questão de vocabulário ou de gramática. Que outras formas de lidar com essas questões práticas da linguagem você adota?
Chico - Consulto habitualmente o Caldas Aulete. Meu livro de estimação é o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de F.F. dos Santos Azevedo, herança de meu pai. Também recorro a uma gramática do Celso Nunes e a dois dicionários de Francisco Fernandes: o de verbos e regimes e o de regimes de substantivos e adjetivos. Dicionários etimológicos são outra grande curtição.
O que você seria se não fosse cantor e compositor?
Chico - Seria topógrafo. Aliás, sou topógrafo.
O que você está lendo?
Chico - Estou lendo ‘‘Da Pintura Antiga - Diálogos de Roma’’, de Francisco de Holanda, Livraria Sá da Costa, Lisboa.
Você usa a Internet? Qual o seu site predileto? Que discos tem ouvido atualmente? O que você gosta mais no Rio e em Paris?
Chico - Ainda não uso a Internet. Atualmente tenho ouvido o meu disco. No Rio, gosto de andar, de olhar o mar e as montanhas e de planejar viagens. Em Paris, gosto de andar, de jantar fora e de voltar para o Rio.
Ler poesia é fundamental para escrever-se um bom romance?
Chico - Para se escrever o que eu entendo como bom romance, o conhecimento de boa poesia é fundamental.
Você se considera poeta?
Chico - Nunca publiquei nem creio que venha a publicar um livro de poemas. Não escrevo poemas.
Por que você, como escritor, não se dedicou ainda a escrever, digamos assim, suas memórias, já que vivenciou um período muito rico de nossa história e teria muito o que contar? Um abraço.
Chico - Não sei se gostaria de escrever um livro de memórias. Pode ser que algum dia me venha a vontade ou a necessidade de escrever um livro assim. Não sei.
Gostaria que você falasse um pouco de Clarice Lispector. No livro ‘‘A Descoberta do Mundo’’ eu li uns textos que ela escreveu a propósito de uma visita sua ou de uma conversa. Gostaria só de saber como lembra dela, como lembra dessas visitas. Lembro que ela falou da sua candura. Fale um pouquinho dela, é só o que peço.
Chico - Estive com Clarice Lispector algumas vezes. Ela era muito carinhosa comigo e eu ainda não era o seu leitor embasbacado que me tornei mais tarde. Devo dizer que ela me intimidava um pouco. Certa vez, convidado para jantar em sua casa, perguntei-lhe se podia levar dois amigos. Fomos ao seu apartamento no Leme, Vinícius de Morais, Carlinhos de Oliveira e eu, e ali ficamos até 2 da manhã, numa conversa de que me lembro pouco. Só me lembro que saímos os três encantados com ela. Quanto ao jantar, não houve. Fomos os três comer no Antonios.
Por que na letra de ‘‘Paratodos’’ faltou citar a eterna Elis Regina? Você a deixou de fora por que não gostava dela?
Chico - Quem disse que não gosto da Elis? Ou da Elizeth? Ou do Ciro Monteiro? Artistas que admiro, fazendo as contas, há mais do lado de fora que dentro de ‘‘Paratodos’’. Mas a música foi escrita para todos.
Por que, embora ninguém conteste o talento de Luiz Claudio Ramos, nos seus discos recentes você abandonou outros arranjadores que sempre o acompanharam, tais como Francis Hime, Edu Lobo ou Chiquinho de Moraes? Qual foi a importância do seu encontro com o Luiz Claudio?
Chico - Mais que em meus primeiros discos, tenho acompanhado a feitura dos arranjos. O violão é meu instrumento. O fato de Luiz Claudio Ramos ser um violonista facilita o nosso diálogo. Ele é um músico talentosíssimo, muito sensível e afinado comigo.
Até que ponto a vivência dos anos de chumbo no Brasil foi um entrave ou um estímulo a sua criatividade.
Chico - Esses anos de chumbo foram um entrave em todos os sentidos.

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