CHICO POR INTEIRO
Valeria Wally
Agência Estado
Show de Chico Buarque é igual Copa do Mundo, ninguém quer perder. Na sexta-feira, tem Chico na tevê. Mas, infelizmente, na tevê paga, esse território ainda inacessível para grande parte dos brasileiros. Assinantes do Multishow, portanto, devem reforçar o estoque de pipoca e cervejinha e convidar os amigos sem acesso ao canal para um programaço: Chico Buarque, As Cidades.
Primeiro, o making of, às 21h. Depois o show, às 21h30. Ao chamar o programa de especial, o Multishow não está usando uma força de expressão. É especial mesmo, revelando múltiplas facetas daquele que foi eleito o nome mais importante da música brasileira neste século, mas não tem nenhum pudor em confessar-se meio sem paciência para compor, gravar ou fazer turnês. Gosto muito de viajar, sempre diz Chico, mas não para fazer shows.
Hoje, aos 54 anos, sente-se muito mais à vontade escrevendo livros. Quando terminou a temporada do show anterior, Paratodos, Chico parou para escrever seu segundo livro, Benjamim. Foram cinco anos em que deixou seus fãs na saudade. Não descarta a possibilidade de fazer o mesma agora, neste mês de abril, quando encerra a maratona de As Cidades.
O especial do Multishow mostra um Chico Buarque em construção, empilhando convicções, dúvidas, reflexões. O artista revela suas penas para tocar o violão direitinho, sua insegurança diante de canções que não são fáceis de cantar. Como um estreante, confessa que prefere cantar sentado. De preferência, canções dos outros, desvinculadas da sua própria vida.
Aos poucos, vai contando quase tudo. Morre de medo de avião e treme diante de entrevistas. O recado está dado para que, mesmo diante da doçura, não se avance o sinal.
No show, Chico mesclou canções antigas e novas. É uma delícia o reencontro com Quem te Viu, Quem te Vê, de 1966; Cotidiano, de 71; Homenagem ao Malandro, de 78; As Vitrines, Samba do Grande Amor. Há homenagens, como Paratodos ou Sem Você, dedicadas ao mestre Tom Jobim. E há as novidades do disco Cidades, como Cecília, Injuriado, Iracema Voou, Carioca ou Chão de Esmeraldas.
O especial transforma o espectador em um privilegiado companheiro de Chico. Vai com ele a uma livraria, espreita um bate-papo com Oscar Niemeyer, acompanha o dueto com Maria Bethânia, sobe junto o Morro da Mangueira. As Cidades é quase um Chico Buarque por ele mesmo. Flui sem apelos emocionais ou confissões escandalosas, bem no estilo do artista, que preza sua intimidade e acredita não ter nada de definitivo a dizer. Só modestos palpites.O canal Multishow apresenta, na sexta-feira, o especial As Cidades em que Chico Buarque canta novos e antigos sucessos
Arquivo FolhaNo especial Chico Buarque intercala música e bate-papo com amigos como Oscar Niemeyer e Maria Bethânia





