Chico e Mangueira celebram o samba
CHICO E MANGUEIRA
CELEBRAM O SAMBA
Compositor e Estação Primeira se reúnem em
homenagens mútuas e são destaque durante
o mês do Carnaval. Ligação entre Escola
e compositor é antiga
Ranulfo Pedreiro
Londrina
Arquivo FolhaChico Buarque
idolatra a Mangueira
desde a infância
e já gravou sambas
de vários compositores
da Estação PrimeiraCigarros e uísque eram consumidos em profusão enquanto o jovem Chico Buarque preparava uma apresentação para o produtor Walter Silva. Depois do aquecimento, o garoto mostrou canções que passavam ao largo da Bossa Nova, que ditava a estética da música popular brasileira na primeira metade dos anos 60. Posteriormente, Silva revelou em depoimento à Folha suas impressões sobre o rapaz: Chico Buarque tocava violão e cantava com timidez, mas suas composições remontavam a sambas antigos. Desde a estrutura melódica até as letras. Um jovem compositor que aparentava ser da velha guarda do samba.
A aproximação de Chico Buarque com o ritmo ocorreu em São Paulo - o compositor nasceu no Rio, mas mudou-se com a família aos dois anos de idade - quando marcava presença em batuques realizados no Colégio Santa Cruz e acompanhava os lançamentos pelo rádio. Nas rodas de samba já se configuravam os compositores que influenciariam sua carreira: além de Noel Rosa, Vinícius de Moraes e João Gilberto, ganhavam destaque mangueirenses como Nelson Cavaquinho, Cartola e Geraldo Pereira.
A ligação, portanto, de Chico Buarque e Mangueira é antiga. O músico já confessou idolatrar a Escola desde a infância, já interpretou sambas de vários compositores mangueirenses e tornou a Estação Primeira tema de algumas composições, como Estação Derradeira e Piano na Mangueira, esta ao lado de Tom Jobim.
A escola de samba retribui agora as homenagens transformando Chico Buarque em enredo do Carnaval deste ano. A opção fez alguns sambistas torcerem o nariz. É que, no afã de homenagear personalidades da música, a Mangueira deixou de lado alguns de seus mestres, como Jamelão - puxador oficial da Escola -, Nelson Sargento e Carlos Cachaça - ex-parceiro de Cartola e único fundador da Escola vivo, com 96 anos.
A escolha ganhou apoio da Dona Neuma - uma das figuras mais expressivas da Mangueira - e do próprio Cachaça. Mas enfrentou oposição de Ivo Meirelles, uma das revelações entre os novos compositores. É interessante frisar que a resistência não é ao nome de Chico Buarque - que também ficou assustado com a história da homenagem e pediu para a Escola adiá-la quando, em 1992, ficou sabendo que se tornaria samba-enredo.
A idéia de homenagear compositores já acompanha os desfiles da Mangueira há algum tempo. Braguinha foi enredo em 1984, Dorival Caimmy em 1985, Tom Jobim em 1992 e Doces Bárbaros - com Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Gal Costa - em 1994. Destes carnavais, a Mangueira só foi campeã com o enredo sobre Dorival Caimmy, composto por Ivo Meirelles.
Mulheres de AtenasAs novidades para o desfile da Mangueira deste ano contam ainda com Alexandre Louzada, carnavalesco que tentará transformar a tradicional Ala das Baianas em Mulheres de Atenas. A letra do Samba Enredo 98, composta por Carlinhos, Nélson Csipai, Vilas Boas e Nelson Rosa soa como louvação: (...) É o Chico das artes, o gênio/ Poeta Buarque, boêmio/ A vida no palco, teatro e cinema/ Malandro sambista/ Carioca da gema (...).
As homenagens mútuas não param aí. Chico Buarque lançou no ano passado o CD Chico Buarque de Mangueira, em que interpreta vários compositores da Escola, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Geraldo Pereira e Zé da Zilda.
O disco virou show e foi registrado ao vivo no Canecão com participações de Cristina Buarque, Jamelão, Lecy Brandão, João Nogueira, Carlinhos Vergueiro e a Velha Guarda da Mangueira. A única música inédita do repertório é Chão de Esmeraldas, parceria de Chico Buarque com Hermínio Bello de Carvalho, que também assina a direção do espetáculo.
O show será exibido amanhã no Multishow a partir das 21h30. Entre as músicas apresentadas, estão Alvorada, de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho, Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, As Rosas Não Falam, de Cartola, que Chico Buarque canta ao lado de Beth Carvalho, e o samba-enredo 98, puxado por Jamelão.
Não é o único destaque com a Mangueira na televisão. O Multishow transformou a série Mangueira, Amor à Primeira Vista - exibida em fevereiro do ano passado - em um longa-metragem que será exibido hoje às 21h30. A adaptação foi feita pelo diretor do canal, o crítico de cinema Wilson Cunha e o cineasta Marco Altberg.
A produção é protagonizada por Júlia Lemmertz e Alexandre Borges, e narra as aventuras de um casal que se apaixona durante o Carnaval nos bastidores da Mangueira. O filme mostra desde os preparativos da Escola para o desfile até a apuração das notas pela comissão julgadora. Entre os figurantes, estão personalidades como Dona Zica, viúva de Cartola, Dona Neuma, Jamelão, Nelson Sargento e Delegado - ex-mestre-sala.
Mangueira, Amor à Primeira Vista - Longa-metragem de Marco Altberg sobre romance nos bastidores da Escola de Samba. Hoje, às 21h30 no Multishow.
Chico na Mangueira - Show gravado no Canecão com Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro, Cristina Buarque, Jamelão, João Nogueira, Lecy Brandão, Nelson Sargento e a Velha Guarda da Portela. Amanhã às 21h30 no Multishow.





