Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Bacana mesmo é adquirir tudo numa tacada só, desembolsando pouco mais de R$ 160,00. Mas se a admiração de há tempos não corresponder à fajutice do saldo bancário, o jeito é ir adquirindo aos poucos. Um a um. Devagar e urgentemente e com todo o sentimento, como já escreveu o homenageado em uma de suas mais belas canções. O negócio é o seguinte: está chegando às lojas o songbook de Chico Buarque. Oito CDs que reúnem 119 canções do dito cujo, gravados entre maio de 1997 e novembro de 1999.
São as canções mais expressivas interpretadas por mais de cem cantores e instrumentistas da música popular brasileira. O lançamento é da Lumiar Disco com produção de Almir Chediak, o mago dos songbooks – de 92 até agora ele já assinou oito projetos do gênero. Além dos CDs, completam o projeto quatro livros contendo 222 partituras de canções e também fotos, discografia e textos assinados por Sérgio Cabral, Adélia Bezerra de Menezes, José Miguel e Guilherme Wisnik. Ah, sim, e uma longa entrevista de Chico a Chediak. Cada livro será comercializado a R$ 39,00.
Os discos. Gil, Caetano, Djavan, Donato, Milton, Bosco, Ney, Cauby, Angela, Gal, Bethânia, Nana, Elba – enfim os caros e diletos amigos ancoram os CDs. Brilham mais aqui ou menos ali entre nomes levemente conhecidos, os que prometem se tornar conhecidos em breve, os emergentes e os esquecidos pelas gravadoras. Tudo muito democrático.
A turma dos levemente conhecidos: Ana Carolina (‘‘Mil Perdões’’ e ‘‘Eu Te Amo’’), Carol Saboya (‘‘Leve’’) , Simone Guimarães (‘‘Desencontro’’), Dora Vergueiro (‘‘Noite dos Mascarados’’), Felicidade Suzy (numa bela interpretação de ‘‘Vida’’), só para citar alguns.
Por se conhecer: Áurea Martins (‘‘Atrás da Porta’’), Branca Lima (‘‘João e Maria’’), Maria Luiz Jobim (‘‘Ciranda da Bailarina’’) e Francisco Faria (esse entrega um belo cartão de apresentação com ‘‘Futebol’’). A turma dos fonograficamente esquecidos vai de Angela Rô Rô (‘‘Futuros Amantes’’) à magnífica Sueli Costa (‘‘Soneto’’).
É preciso registrar a presença brilhantíssima e especialíssima de Bibi Ferreira cantando ‘‘Palavra de Mulher’’ – está no CD número 5. E também da cantora e compositora portuguesa Eugênia Melo e Castro que com toda autoridade alterou a letra de ‘‘Tanto Mar’’. Os totens da MPB não foram esquecidos – e representados no projeto por Angela Maria (‘‘Bastidores’’), Cauby Peixoto (‘‘Viver de Amor’’), Zezé Gonzaga (‘‘Valsinha’’) e a grande Marlene (‘‘Não Existe Pecado ao Sul do Equador’’).
As irmãs de Chico não poderiam ficar de fora. São cantoras, pois. Das três, Miúcha (‘‘Joanna Francesa’’ e ‘‘Todo o Sentimento’’) e Ana de Hollanda (‘‘Lua Cheia’’) se saem, como sempre, bem melhor que Cristina (‘‘Sob Medida’’). Todas as músicas receberam tratamento sonoro à altura. Bons músicos e bons arranjadores (entre eles, Leandro Braga, Adriano Giffoni, Cristóvão Bastos, Lula Galvão, Gilson Peranzetta, Marcos Suzano, Toninho Horta) fazem a qualidade de cada um dos oito CDs do songbook.
O problema, para quem vai adquirir o projeto a granel (cada disco será vendido entre R$ 20,00 e R$ 22,00), é saber por onde começar, por qual disco começar a compra. A escolha é difícil pois todos estão equilibrados tanto em repertório como intérpretes.
Há interpretações magníficas diluídas nos oito volumes, como Nana Caymmi comovendo com ‘‘Olhos nos Olhos’’, Cida Moreira arrasando em ‘‘Rosa dos Ventos’’, uma iluminada Angela Maria em ‘‘Bastidores’’, Maria Bethânia (na condição auto-intitulada de intérprete oficial de Chico) emocionando em ‘‘Até Pensei’’. Ah, as mulheres... Elas, não se sabem o porquê, captam melhor os sentimentos de Chico. Tetê Espíndola que o diga – ‘‘O Meu Amor’’ ficou maravilhosa.
Dos homens, Cauby Peixoto dá seu recado em ‘‘Viver de Amor’’ bem como Arnaldo Antunes em ‘‘Cotidiano’’. Claudio Nucci (sumido) dá um show em ‘‘Suburbano Coração’’. Um encontro interessante fica por conta de Zeca Pagodinho e Almir Guineto, que nunca haviam gravado Chico Buarque, cantando ‘‘Feijoada Completa’’.
É dificíl, enfim, apontar esse ou aquele disco como o melhor ou o mais bonito. Todos são muito bonitos. Um minucioso inventário musical. Que fecha com chave de ouro um ano em que Chico Buarque esteve muito – e merecidamente – em evidência.

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