Chico César põe o pé na modernidade
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segunda-feira, 17 de junho de 2002
Nelson Sato<BR>Reportagem Local 
As cantoras o adoram. Boa parte da ala feminina de frente da MPB já gravou suas composições. É provável que uma, duas ou até três faixas de seu novo disco siga o mesmo trajeto incorporando-se ao repertório de mulheres intérpretes de peso. Respeitem Meus Cabelos, Brancos (MZA/Abril Music), o quinto álbum do paraibano Chico César, é uma fonte generosa de baladas românticas uma das melhores, Antes que Amanheça, já foi emprestada para Maria Bethânia, que a lançou no ano passado.
Mas o disco não se resume a canções amorosas, expandindo-se para vários universos sonoros. O CD mostra um artista cada vez mais personalizado, distante do guarda-chuva tropicalista com que a crítica o abrigou após sua chegada ao mercado. O compositor chegou às rádios, mas não se sujeitou a fórmulas viciadas de sucesso. Nisso, Lenine foi injusto ao puxar-lhe as orelhas na entrevista concedida este mês à revista Cult (sim, a publicação literária), na qual condena uma suposta acomodação musical do amigo.
Chico César parece intensificar o desafio de modernizar a MPB segundo padrões de produção e de estética contemporâneas. Decidiu, paralelamente, revigorar o discurso de cunho social. Na vibrante faixa-título, ele mostra suas armas: Respeitem meus cabelos, brancos / chegou a hora de falar / vamos ser francos / pois quanto um preto fala / o branco cala ou deixa a sala / com veludo nos tamancos / cabelo veio da África / junto com meus santos / bengueles, zulus, gêges / rebolos, bundos, bantos / batuques, toques, mandingas / danças, tranças, cantos / respeitam meus cabelos, brancos / se eu quero pixaim, deixa / se eu quero enrolar, deixa / se eu quero colorir, deixa / se eu quero assanhar, deixa / deixa a madeixa balançar.
O disco é recheado de participações especiais. A mais ilustre, de Chico Buarque, faz dueto com o anfitrião em Antinome. A canção, que traz uma atmosfera portenha reforçada pela sanfona de Toninho Ferragutti, foi recuperada após passar em brancas nuvens pelo Festival da Música Brasileira, promovido há dois anos pela TV Globo.
A seção rítmica experimentada no disco anterior, Mama Mundi, foi mantida com a presença dos percussionistas Marcos Suzano e Naná Vasconcelos. O baiano Carlinhos Brown também colabora assinando os arranjos da cozinha em Experiência, que conta ainda com os vocais (de Nina Miranda) e violão (de Chris Franck) do grupo lounge Smoke City, além de teclados e beats adicionais do anglo-suiço Will Mowat.
Mowat, presente em todo o disco, embute timbres eletrônicos ao trabalho do compositor paraibano. Os loopings soam discretos e dosados mantendo a melodia como centro das composições. O repertório diverso integra reggae (Nas Fronteiras do Mundo), coco (Sem Ganzá não é Coco), xote (Flor de Mandacaru) e uma boa coleção de canções de amor. A jóia do álbum, Pétala por Pétala, inicia parceria com Vanessa Bumagny. É a canção que poderia figurar em trilha sonora de novela e ganhar o mundo. Cantoras, com certeza, farão fila para garimpá-la no relicário do compositor. Lenine queimou a língua.


