Chico Buarque volta a São Paulo com "As Cidades"
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quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 02 (AE) - Chico Buarque volta a cartaz em São Paulo com o show "As Cidades. Vai apresentá-lo, agora, na nova casa Credicard Hall. De amanhã (03) a domingo e de sexta a domingo da semana que vem. Serão as derradeiras apresentações. E encerra-se o assunto "As Cidades".
Ou melhor, não se encerra ou não deveria: se houver um mínimo de racionalidade, "As Cidades" ficará como parâmetro para espetáculos musicais. É o show mais bonito e bem realizado de qualquer tempo. Pela obra, pelo dono da cena, pelos demais artistas envolvidos.
Jamais um grupo musical funcionou em cena como funciona a banda de "As Cidades", e não apenas pelos arranjos ímpares do violonista Luís Cláudio Ramos: ali, a noção de tempo e oportunidade - conveniência - tem valor absoluto. O espectador ouve os instrumentos com mixagem da qualidade da de um CD, localiza espacialmente cada nota, cada tinir percussivo.
Os músicos são, além de Luís Cláudio, João Rebouças (piano), Jorge Hélder (contrabaixo), Wilson das Neves (bateria), Chico Batera (percussão), Marcelo Bernardes (sax e flautas) e Bia Paes Leme (teclados). O centro de tudo é o violão de Chico. O começo de tudo (como de fato). A música parte dele, colore-se com os outros instrumentos, volta para o violão do autor, resumindo-se.
E o som? - A propósito, os problemas de som do Credicard Hall, atestam seus frequentadores, não foram sanados. A casa é enorme e em alguns setores não se ouve bem. O problema do eco, provocador da ira de João Gilberto, persiste. Tomara que outros cuidados sejam tomados para que não se perca a qualidade que foi exibida no Palace, quando o show esteve aqui pela primeira vez.
E, se "As Cidades sai logo de cartaz, há mais de Chico Buarque, em outros discos e livros (vale lembrar que o espetáculo foi gravado ao vivo e lançado em CD, duplo, com o título de "Chico ao Vivo). Hoje inaugurou-se no Rio a segunda mostra A Imagem do Som, em que artistas plásticos interpretam visualmente a obra buarquiana.
Na próxima semana, chega às lojas o Songbook "Chico Buarque", organizado e produzido por Almir Chediak. São oito CDs, com mais de uma centena de músicas intepretadas por mais de uma centena de cantores - gravações feitas especialmente para o songbook -, e quatro livros, com 220 partituras, revistas pelo autor.
"As Cidades" esteve em 15 cidades e foi visto por 150 mil pessoas, no Brasil e no exterior. A propaganda veiculada na televisão diz: "Não perca, até porque não se sabe quando será o próximo." É que entre o show anterior, Paratodos", e o de agora, se passaram cinco anos. Chico ainda não sabe se vai continuar compondo ou se pára e se debruça sobre um novo livro.
Mas, voltando ao show: nele, Chico faz um balanço de carreira. O roteiro, de 27 músicas, vai do início da carreira e chega a 10 dos 11 números do disco "As Cidades". Chico só não canta "Você, Você", letra dele para melodia de Guinga. Não aprendeu a tocá-la ao violão a tempo para a estréia do show. Ficou para depois, depois, e não entrou.
"Carioca, Iracema, Assentamento, Sonhos, Sonhos São, Injuriado" e as outras estão, em arranjos bem semelhantes aos do disco. Em compensação, Chico propôs roupagem nova para composições mais antigas. Voltou a cantar"Construção", que havia gravado com o MPB-4 e agora surge como um xote estilizado, de forte impacto.
Três músicas do roteiro não são dele: Como se Fosse a Primavera, de Pablo Milanés e Nicolás Guillén (mas a versão em português é de Chico); "Capital do Samba", de José Ramos, grande compositor de sambas de quadra e integrante da Velha-Guarda da Mangueira - "Capital do Samba" serve de prólogo a "Chão de Esmeraldas", de Chico (música) e Hermínio Bello de Carvalho (letra), homenagem deles à eterna mangueira; e "Sem Você", de Tom Jobim. Chico, com seu violão, quase sozinho no palco (à sua esquerda, no canto da cena, na penumbra, fica Luís Cláudio Ramos), homenageia o mestre e chora sua irremediável ausência. É um momento particularmente emocionante.
Chico canta algumas músicas que nunca havia cantado - num bloco em voz feminina, "Sob Medida, O Meu Amor, Teresinha"; outras que tinha deixado de cantar - Bancarrota Blues, cada vez mais atual, Cotidiano, a citada "Construção".
O violonista e o cantor estão em seu melhor momento. A carreira comemora 35 anos na construção da obra exemplar, íntegra como poucas, bela como pouquíssimas, na opinião de muitos a mais bela de todas. Se algum espetáculo mereceu algum dia o rótulo de imperdível, foi, é esteAs Cidades".


