Chico Buarque lança O Irmão Alemão
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terça-feira, 18 de novembro de 2014
Raquel Cozer<br>Folhapress 
São Paulo - Os sete filhos do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) com Maria Amélia (1910-2010) costumam explicitar suas posições na escadinha de nascimentos, entre os anos de 1937 e 1950, assim: Miúcha é a "número 1", Sergito, o "número 2", e por aí vai.
Quando, em 1967, os herdeiros do historiador souberam da existência de um meio-irmão alemão, nascido em 1930 de um namoro do pai em Berlim, todos poderiam ter dado um passinho para trás nessa fileira. As informações escassas sobre o primogênito, no entanto, mantiveram o cenário inalterado.
Mas o irmão número 4, Chico Buarque, 70, o primeiro a saber da história - graças a uma inconfidência de Manuel Bandeira, amigo de seu pai -, nunca se contentou com a falta de notícias.
Em 2012, após mais de quatro décadas ciente do caso, o músico e escritor resolveu transportar a experiência de anos de incerteza para o papel, na forma de ficção.
O fruto dessa angústia, "O Irmão Alemão", quinto romance de Chico Buarque, começou a ter suas 70 mil cópias iniciais distribuídas às livrarias do país na semana passada - e, no que diz respeito a dados sobre o personagem, vai bem mais longe do que o autor imaginou a princípio.
O que aconteceu foi que, seis meses após iniciar o romance - para o qual teve inspirações como "Austerlitz", de W.G. Sebald e "Paris, a Festa Continuou", de Alan Riding -, Chico descobriu documentos que sua mãe guardara por décadas.
Eram cartas trocadas nos anos 1930 entre autoridades alemãs e seu pai - elas o chamavam de Sergio de Hollander, que virou o nome do personagem na ficção. As missivas tratavam da possível adoção do filho Sergio Ernst por um casal em Berlim. Mas, para isso, o historiador tinha de enviar documentos comprovando que o garoto não tinha ascendência judaica.
Desses documentos, e com trabalho de pesquisa feito com a ajuda da Companhia das Letras, saíram os dados que ajudaram Chico a terminar o livro. "O Chico em geral demora de um a dois anos para escrever um livro. Do meio para o final do primeiro ano, ele me ligou dizendo que estava com bloqueio, que precisava descobrir o que houve com o irmão para escrever. Falei para ele: 'Vamos dar um jeito'", diz Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.
MEIAS VERDADES
As incertezas de um rapaz que persegue pistas de um meio-irmão desconhecido estão no centro do romance, protagonizado por Francisco de Hollander, o Ciccio, filho de um pesquisador com uma italiana chamada Assunta. Em vez de seis irmãos brasileiros, Ciccio tem apenas um, o mulherengo Mimmo.
O cenário ficcional daquele que Chico definiu a amigos como seu "romance paulista", rico em descrições da São Paulo dos anos 1950 e 1960 - em contraposição a seu romance anterior, "Leite Derramado" (2009), que se passa no Rio -, é em tudo familiar para quem conhece a história do compositor.
Ciccio, assim como o autor aos 17 anos, "puxa" carros alheios na rua - é famosa na biografia do cantor a imagem em que ele aparece fichado pela polícia por ter furtado um carro para dar uma voltinha.
Outra passagem conhecida da vida de Chico é aquela em que ele enganava taxistas que o deixavam na porta do bar Riviera, em São Paulo, dizendo que só ia comprar um cigarro e escapando pelos fundos sem pagar a corrida. No livro, o narrador comenta: "Não sei como ainda não descobriram que esse bar tem uma saída pelos fundos".
Obviamente, a barafunda de referências é mais clara para os irmãos de Chico, que tiveram acesso ao romance apenas na semana passada. "Minha irmã Cristina me ligou ontem: 'Já imaginou mamãe cozinhando com alho?'. Mamãe odiava alho, e a Assunta só cozinha com alho", diz a cantora Miúcha, a número 1, que leu o romance duas vezes em cinco dias.
"O pai do Ciccio é um cara mais severo, e papai era brincalhão. Mas a descrição dele trabalhando, bate na máquina, arranca a folha, amassa, joga a bola de papel, é como me lembro", conta a cantora e ex-ministra Ana de Hollanda, a número 6. "Chico adora esse quebra-cabeças."
A remessa do romance para os irmãos apenas na véspera do lançamento explicita a estratégia de divulgação da Companhia das Letras, que, como de costume, fez mistério sobre a obra.
O título e um trecho do livro foram divulgados apenas 11 dias antes da chegada da obra às livrarias, na última sexta (14). Chico, como de costume, não quis dar entrevistas.
AUTORIZAÇÃO
"Chico Buarque pediu autorização dos herdeiros de seu irmão para escrever um livro sobre ele?", questionou Ruy Castro, ao saber o tema do novo romance do cantor e compositor.
No ano passado, no auge da polêmica envolvendo a autorização prévia de figuras conhecidas ou herdeiros para a publicação de obras de tom biográfico, Chico se posicionou pela manutenção da lei brasileira - que estipula a necessidade de autorização.
O romance recria a vida de seu pai e de seu meio-irmão. Ele não mostrou o livro previamente nem aos parentes daqui nem aos alemães. A boa notícia, para ele, é que todo mundo parece ter ficado contente com o resultado.
O Irmão Alemão
Autor - Chico Buarque
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 239
Quanto - R$ 39,90


