Chico Buarque estréia amanhã o show "As Cidades" em SP; espetáculo fica em cartaz 7 semanas
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terça-feira, 16 de março de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 17 (AE) - Chico Buarque estréia amanhã (18), às 21h30, no Palace, o show "As Cidades". Serão sete semanas (sempre de quinta a domingo) de apresentações. Não há mais ingressos para a primeira semana e há poucos para a segunda. A casa está realizando vendas antecipadas: quando a venda para uma semana atinge 75% da lotação, começam a ser vendidos ingressos para a seguinte.
"As Cidades" tem o mesmo nome do mais novo disco de Chico, depois de um silêncio quase absoluto - ele não fez shows, mas participou de shows de amigos, nem gravou discos, mas gravou participações em discos alheios. Das 11 músicas do disco, dez estão no roteiro do espetáculo. A que fica de fora é "Você, Você", música de Guinga para a qual Chico escreveu a letra. "Não ficou pronta", diz ele, rindo. Quer dizer que não aprendeu a tocar a música no violão.
Ou melhor: não domina seu intrincado desenho harmônico ao violão. Em "As Cidades", Chico assume-se músico, como nunca. Toca violão em 26 das 29 músicas do roteiro (incluindo-se nesse número 3 do bis, que podem variar de noite para noite). Deixa o violão pelo cowbell percussivo - um sino daqueles que se penduram no pescoço do gado, muito usado pelos percussionistas por causa do som redondo e cavo - quando canta "Como se Fosse a Primavera", de Pablo Milanés e Nicolás Guillén, e em "Cotidiano", música de 1971, do disco "Construção". "E em "Bancarrota Blues" eu toco dedo", brinca.
Estala os dedos para marcar o compasso do blues irônico, letra dele, música de Edu Lobo, composta em 1985 para a trilha da peça "O Corsário do Rei": "Uma fazenda/ Um casarão/ Imensa varanda/ Dá gerimum/ Pé de jacarandá/ Eu posso vender/ Quanto você dá?" - a metáfora crítica da política de privatizações veio à luz com uma década de antecedência. Mas Chico não se está vangloriando da antevisão, apenas reiterando a opinião.
Chico Buarque está comemorando, com "As Cidades", os 35 anos de carreira. A última apresentação em São Paulo será em 2 de maio e não haverá prorrogação da temporada, pois a turnê segue em frente. O show teve uma pré-estréia em Juiz de Fora - mas, atenção, não foi um ato de apoio ao teimoso governo mineiro; trata-se de uma coicidência. Os produtores do espetáculo queriam testá-lo numa casa que tivesse condições semelhantes (de palco, som, luz) às do Canecão, no Rio, onde, finalmente, se deu a estréia oficial. Assim, a primeira noite no Palace será a 25.ª noite do show "As Cidades". Tanto melhor: o espetáculo chega afinado, com todas as equações resolvidas. Daqui partirá para Belo Horizonte e, em junho, haverá seis apresentações em Portugal (nos Coliseus de Lisboa e do Porto e numa terceira casa, a definir). De volta ao Brasil, a rota aponta para as capitais - Brasília, Salvador, Recife e outras - e volta-se novamente para o exterior: as datas para França, Inglaterra e Itália estão sendo acertadas para outubro e novembro.
"Está de bom tamanho para mim", diz Chico. "Quase um ano na estrada já me satisfaz". É o mesmo tempo que o último espetáculo do compositor, Paratodos, esteve em cartaz, em 1994. Depois de "Paratodos", Chico recolheu-se para escrever seu segundo romance, "Benjamim", que lhe consumiu três anos de trabalho, período em que não compôs nada.
"As Cidades" é um show difícil, musicalmente sofisticado, que exige concentração muito grande", diz Chico. "Não há, para mim, nenhum tipo de barriga, de momento em que possa ficar relaxado: cada canção, mesmo as mais antigas, exige esforço - e dá prazer". Ele prefere que seja assim: "Por causa da complexidade, no momento em que eu relaxar, vou errar: não há piloto automático possível, pela dinâmica musical, pelo fato de eu estar tocando violão o tempo todo".
Será que o público estala os dedos com ele, quando ele canta o "Bancarrota Blues"? É coisa comum, um vício das nossas platéias. "Não sei, pode ser que estale, mas não sei", confessa o compositor. "Eu não ouço muito a platéia", diz. "Crio, mesmo sem querer, uma certa barreira, eu com minha música e meus músicos" - uma barrreira que traduz a atenção ao ofício.
"As Cidades" tem direção musical do violonista e maestro Luiz Cláudio Ramos, responsável pelos arranjos. Chico toca e canta acompanhado por João Rebouças (piano), Jorge Hélder (contrabaixo), Wilson das Neves (bateria), Chico Batera (percussão), Marcelo Bernardes (percussão) e Bia Paes Leme (teclados e vocais). O cenário é de Gringo Cardia e a luz foi desenhada por Ney Matogrosso.


