São Paulo, 22 (AE) - Antes da derradeira música, "João e Maria", era possível ouvir as moças se esgoelando, histéricas: "Eu te amo, eu te amo!; gracinha, gracinhaaaaaaa!" E olha que não se tratava de um show dos Backstreet Boys, mas de Chico Buarque, beirando os 55 anos, três filhas, dois netos, um maço de cigarros por dia, dez cafezinhos, uma pelada de futebol eventualmente. O show em questão ocorreu em abril, no Palace, em São Paulo, mas não teria sido muito diferente em lugar nenhum deste país.
Agora, a figura totêmica de Chico Buarque está de volta. Além do show ao vivo do cantor e compositor, que a BMG coloca na próxima semana nas lojas, ele retorna à cidade para shows no Credicard Hall, nos dias 3, 4 e 5 de dezembro. Antes disso, no entanto, há outros acontecimentos buarquianos a caminho. Na semana que vem, a jornalista e escritora Regina Zappa dá os últimos retoques no livro que escreveu sobre o cantor (editora Relume Dumará), a ser lançado no dia 23 de novembro no Planetário, na Gávea.
No Paço Imperial, também no Rio, com curadoria de Felipe Taborda, será aberta uma exposição sobre a obra de Chico Buarque. Serão 80 artistas criando versões visuais e plásticas das músicas do cantor, coisa que já foi feita com a obra de Caetano Veloso. Em São Paulo, o frisson fica por conta de um livro com o rigor da tese acadêmica. Adélia Bezerra de Menezes, professora do Departamento de Teoria Literária da USP, trabalhou durante meses para montar "Figuras do Feminino", uma análise do Eu feminino na obra de Chico Buarque. O livro vai sair pelas editoras Senac/Boitempo.
Dado o comportamento arredio de Chico Buarque, é um fenômeno de massas quase sem explicação. "Eu acho que a chave disso tem muito a ver com a música dele, com o sentimento das suas canções, que são muito fortes e autênticas", diz a jornalista Regina Zappa, que desde o fim de junho trabalha em livro sobre o cantor. Ela recheou o livro com depoimentos de pessoas ligadas ao cantor, como a ex-mulher, Marieta Severo, as três filhas, Edu Lobo, MPB4, Francis Hime, Maria Bethânia, entre outros. E, claro, o próprio Chico.
O perfil que emergirá das 150 páginas do livro de Regina - ainda sem título - não é uma biografia latu sensu. Mostra Chico falando de seu perfil político, de como desprezava a pecha de porta-voz da esquerda, da perseguição da censura (que o levou a adotar o pseudônimo Julinho da Adelaide), de como João Gilberto entrou na sua vida. Assédio - "Ele é reservado mesmo, não é um personagem que ele criou", diz Regina, que caminhou bastante com Chico pelas ruas do Rio e pôde sentir como é sua relação com a fama, com as pessoas, com o assédio. Chico, cavalheiro, nunca pediu para ler nada do que Regina escreveu a seu respeito, mas ela fez questão de mostrar algumas passagens, para não cometer deslizes. "Não tem nada sensacionalista no livro", adverte a escritora.
"O meu livro eu centrei na fala feminina, no Eu lírico feminino, não importando que o autor seja um homem", afirma a professor Adélia Bezerra de Menezes, que prepara o lançamento de "Figuras do Feminino". "E ele às vezes assume um ponto de vista espantosamente feminino", diz a autora, que já tinha publicado, no início dos anos 80, "Desenho Mágico - Poesia e Política em Chico Buarque" (cuja reedição deverá sair pela editora Atelier e que chegou a ganhar um Prêmio Jabuti).
"Figuras do Feminino" perpassa todas as mulheres da obra do cantor, de "Carolina" e "Bárbara" a "Cecília" e "Você Você", do disco mais recente. E articula as canções com imagens que se relacionam com os temas. Em "Pedaço de Mim", ela usa uma reprodução da tela "O Casal", de Ismael Neri. Em "Angélica", é uma ilustração de Portinari. E assim por diante.

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