"Chico ao Vivo" é uma amostragem histórica que relembra o início de sua carreira
São Paulo, 22 (AE) - Em uma frase, poderia ser dito aqui que o CD duplo "Chico ao Vivo" é bom porque dispensa o fã de ter todos os discos do cantor em casa para conhecer sua obra. É uma amostragem histórica com 28 canções que relembra desde o início de sua carreira (com o samba "Quem Te Viu, Quem Te Vê", de 1966) à novíssima fase (com "Cecília", do disco "As Cidades", feita em parceria com o diretor do show e produtor do disco, Luiz Carlos Ramos).
As apresentações de Chico no Palace, em abril, foram saudadas pelos fãs e entusiastas da obra do cantor como "irretocáveis" e "históricas". É um juízo que pressupõe uma aprovação prévia de toda a obra de Chico Buarque, que certamente nem o próprio acharia conveniente. Mas o produtor respeitou essa disposição dos admiradores do cantor, tanto que nem a ordem de apresentação das músicas foi mudada. Quem não viu o show "histórico", compre o CD, que é a mesma coisa.
Consta que Chico Buarque nunca gostou muito de discos ao vivo. Tem dois, em parcerias com Bethânia e Caetano, e um terceiro, gravado no Teatro Zenith, de Paris. Sendo um pouco mais rigoroso que um fã, é preciso dizer que nem tudo é sagrado nesse set list do show de Chico Buarque. "A Ostra e o Vento", tema do filme de Walter Lima Jr. é chatérrima, um tema que interpreta mal Caymmi e que parece mais legenda para personagem de realismo fantástico. E "Cecília" não chega aos pés de "Teresinha" - na verdade, até desmerece aquela fantástica canção da "àpera do Malandro".
É preciso dizer que as melhores canções não são as mais recentes, o que mostra um certo embotamento da capacidade criativa do compositor (embora algumas, como "Carioca" e "Paratodos", sejam excepcionais). Outra que veio entrar no panteão das grandes obras do cantor é o sambinha "Injuriado", menos badalado, mas especialmente bem-construído e imbuído daquela transferência de Eu que tanto fascinou a acadêmica Adélia Bezerra de Menezes.
Entre as antigas bem escolhidas estão clássicos absolutos, como "As Vitrines" (canção de 1981, que foi tema de novela), "Cotidiano" (de 1971, que não era cantada por ele há um tempão), "Futuros Amantes" (a mais fulminante de suas canções, que entrou no bis), "O Meu Amor" (pela primeira vez interpretada no palco) e, claro, "Construção" (que ele não cantava há 27 anos). Outras entram apenas pelo seu valor sentimental, caso de "Chão de Esmeraldas" (parceria com Hermínio Bello de Carvalho), seu hino de louvação à Mangueira. A Estação Primeira já recebeu homenagens bem mais criativas.
A favor de Chico (certo que ele não precisa disso), pelo menos pode-se dizer que esse disco é menos oportunista e esquizofrênico do que aquele ao vivo que Caetano fez na Itália e que mistura "Cajuína" com João Gilberto e com Irving Berlin. (J.M.) Serviço - "Chico Ao Vivo". CD duplo do cantor e compositor Chico Buarque. BMG. Preço médio do disco: R$ 25,00





