Curitiba - Corre uma história nos bastidores carioca de que nos já distante anos 80, uma amigo de Chico Anysio teria começado a pintar e pedido a opinião do humorista sobre seus quadros de estréia. Já reconhecido como um dos maiores nomes do showbiz brasileiro, Chico teria respondido sem piedade: ''Deixa disso que é perda de tempo. Eu tentei me dedicar à pintura e nunca deu em nada''. Agora o humorista parece estar correndo atrás do tempo perdido e faz a sua primeira grande exposição em Curitiba. Apoiada pela Audi do Brasil, a mostra abre hoje para o público, na Pinacoteca do Clube Curitibano.
Aos 72 anos, Chico Anysio se dedica a pintura há quase três décadas. E o faz de maneira fervorosa. Quando soube da notícia que os 40 quadros que embalou pessoalmente para trazer à exposição em Curitiba já tinham sido vendidos e teria que pintar a mesma quantidade para uma próxima exposição no interior paulista, agendada para o mês que vem, não demonstrou apreensão. ''Eu pinto mais de 50 quadros em um mês'', afirmou revelando uma técnica semelhante à produção em série, mas que ele garante que resguarda a individualidade das telas.
''Eu disponho as telas na minha frente e pinto dez céus, depois pinto o mar em cada uma das telas. Em seguida, pinto as árvores e assim vou eliminando o que cada um dos quadros vai ganhar ou não'', exemplifica. Anysio, como ele assina as suas telas, tem privilegiado as paisagens marinhas e dedica as manhãs para produzi-las. ''Eu acordo muito cedo e trabalho até o meio dia com a pintura'', conta.
Algumas línguas mais ferinas diriam que como pintor, Chico Anysio é um ótimo humorista, mas ele diz não estar preocupado com a crítica. ''No Brasil, a crítica de artes plásticas não é especializada, por isso elas não são importantes para mim'', diz ao mesmo tempo que afirma que é ''desesperante'' não vender os quadros. Não que ele encare (ou queira encarar) a pintura como seu único ofício. ''Eu pinto o que gosto, o que posso e o que sei e fico super feliz em vender meus quadros'', revela.
E quando questionado se o seu nome, enquanto grife, o ajudou a ingressar no restrito mundo das artes plásticas brasileiras, face a quantidade de (bons) artistas ignorados no País, Chico diz apenas que as pessoas ficam ''felizes em adquirir seus quadros''. E ele, por sua vez, se espanta coma quantidade de pessoas que os têm. ''As vezes vou fazer um show numa cidade distante e uma pessoa que eu nem imaginava tem um quadro meu, isso é gratificante''.
Isso acontece porque a Rede Globo, emissora que voltou a exibir os personagens de Chico Anysio, depois de um período de ''congelamento'', costuma comprar os quadros do pintor/humorista e oferecê-los como presente em datas festivas. Entre a emissora e compradores diversos, Chico afirma ter vendido mais de 6 mil quadros. Atualmente, cada quadro seu custa entre R$ 1 mil e R$ 3 mil.
Mas na entrevista que concedeu à imprensa curitibana, Chico Anysio não contou só de sua faceta como pintor. Revelou que está prestes a produzir uma série de 15 DVDs que vai reunir pelo menos 150 personagens criados por ele e também seus shows realizados desde a década de 60.
Cearense de Maranguape, o humorista iniciou sua carreira no rádio em 1948 e estreou na televisão no programa Noites Cariocas, em 1957. Um dos seus programas mais famosos, ''A Escolinha do Professor Raimundo'', foi criado em 1952, por Haroldo Barbosa, sendo veiculado pela Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, e depois retomado pela Globo. Entre os seus personagens inesquecíveis, incluem-se Justo Veríssimo, Painho, Coalhada, Coronel Limoeiro e o galã Alberto Roberto.
Outro personagem que promete nascer célebre antes mesmo de ser aprovado pela Globo é Januário, um personagem baseado na música de Luiz Gonzaga (aquela cujo refrão é ''Luiz, respeita Januário''. O personagem, um metalúrgico, foi chefe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando ele começou a trabalhar em São Paulo e conversa (com uma sugestiva voz imitando o presidente) com um Lula imaginário. ''Estou só esperando aprovação da Globo para criar o personagem, já que agora a emissora tem um comitê para avaliar se os programas são politicamente corretos ou não'', alfineta.
Serviço:
Exposição de Chico Anysio. De hoje até 2 de junho na Pinacoteca do Clube Curitibano (Rua Getúlio Vargas, 2857) e de 4 a 8 de junho na Galeria Nini Barontini (Rua Saldanha Marinho, 1577).

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