Antônio Mariano Júnior
De Curitiba
O público que lotou o Teatro Guaíra, anteontem em Curitiba, já saiu de casa disposto a bater palmas com vontade para Chico Buarque. Havia uma saudade de cinco anos que precisava ser dizimada a qualquer custo. Portanto, cantasse o que cantasse (com sua voz miúda) Chico seria ovacionado de qualquer jeito. Mas não foi bem assim a história. O show ‘‘As Cidades’’ foi marcado pela emoção. Uma emoção que foi aflorando aos poucos. E de ambas as partes. No início, Chico e público estavam travados. Como dois amantes que se reencontram anos depois. Ele escondido atrás do violão, o público dissimulando a ansiedade através do chacoalhar de cabeças e tímidas palmas.
O ‘‘constrangimento’’ só foi quebrado com um abafado, mas sincero, ‘‘Eu te Amo’’ vindo de uma moça que se rendeu, como se fosse uma declaração de amor a ela, a delicada letra de ‘‘Cecília’’, a oitava das 29 canções que Chico trouxe como um ramalhete de flores. A partir daí, o ‘‘relacionamento’’ foi reatado e Chico e público se entregaram sem pudor nenhum.
Romantismo à parte, ‘‘As Cidades’’ é tecnicamente perfeito. Som impecável, músicos (sete, no total) entrosadíssimos, arranjos delicados, repertório primoroso e cenografia interessante (mais uma bela sacada de Gringo Cardia). Agora, a iluminação (feita por Ney Matogrosso e Maneco Quinderé) foi um show à parte (os holofotes ‘‘cegando’’ ou ‘‘atropelando’’ a platéia nos versos finais de ‘‘Construção’’ foi genial).
Mas é impossível não suspirar quando se remomora ‘‘As Cidades’’. Chico cantou basicamente o amor, embora tenha passado, de leve, pelos sambas (aliás, o show foi dedicado a Carlos Cachaça, morto na última segunda-feira) e quase nada pelas canções de protesto (representadas apenas em ‘‘Vai Passar’’ e ‘‘Assentamento’’). Com voz bem colocada — o que não faz a emoção, não? — soltou a alma feminina e embeveceu a todos com ‘‘Terezinha’’, ‘‘Sob Medida’’ e, principalmente, ‘‘O Meu Amor’’. As luzes vermelhas davam o clima.
Uma coisa é certa: ‘‘As Cidades’’ mais cedo ou mais tarde, através desta ou aquela canção, pega todo mundo. Uns mais, outros menos, mas todos saem encantados, emocionados, comovidos, sem muitas palavras para dizer o que se passou naquela gelada — lá fora — noite em Curitiba. A punhalada final veio com ‘‘João e Maria’’. Todos cantaram. Todos, nesse momento, tinham forças para enfrentar alemães com bodoques para coroar a princesa tão linda de se admirar.
Chico cantou, cantou, cantou. Como é possível ele cantar tão lindo assim? Logo ele que está longe de ser um intérprete. Logo ele, um sujeito tão desajeitado em palco. E quem estava se importando se Chico tem um fiapo de voz? Todos se renderam à força de suas canções. Precisou voltar duas vezes ao palco.
A emoção bateu tão forte em todos que provocou as mais diversas reações — alguns urravam, outros assoviavam com toda a força do pulmão, outras gritavam ‘‘lindo’’. Até um gaiato, por falta de adjetivo e chão, soltou um carinhoso ‘‘miserável’’ como quem diz: ‘‘É pouco, senta aí e toca tudo o que a gente tem direito de ouvir.’’ ‘‘As Cidades’’ não é um show; é um fato.

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