Chic ataca pós-peruas e jecas de chinelo
As peruas são o sistema de uma doença: o exibicionismo financeiro. A perua é uma vitrine viva das marcas mais conhecdas, mais caras e mais visíveis. Sua segurança sustenta-se na manifestação explícita da riqueza. Tire o ouro, as griffes, os relógios, os carros de uma perua e você terá diante de si um ser frágil, sem ação e identidade.
Esta é uma das aulas de vida do livro de Glória Kalil: Chic - Um Guia de Moda e Estilo que vem botar ordem e criticismo no espantoso carnaval da moda que nos assola.
O livro estourou e esgotou na primeira semana. Segunda edição, só em janeiro. Com Chic de Glória Kalil, finalmente alguém tem a coragem de botar o dedo nas cabeleiras tingidas, nas cascatas de laquê, nas bolsas chanel douradas, nos vestidos azuis com debruns de oncinhas, nos leggings abacate, nos uniformezinhos com galões militares (lembram de Rosane Collor no Japão?), nos jeans metalizados, neste pesadelo de luxo sangrento que é nosso mundo das roupas. Estávamos todos intimidados com a sórdida liberdade pós-moderna. Existe hoje uma unidade de estilo, uma lógica decorativa que vai desde o cabelo em repuxo da piranha clubber até os prédios pós-pós da Av. Berrini, desde os halls de banco até a arquitetura sexy dos quartos de motel. Vá a um casamento de catedral, com damas de honra cor-de-rosa, com patronesses de walk-talk com Ray Conniff tocando a marcha nupcial, vá a uma festa de debutantes com pré-peruas núbeis saindo de enormes conchas com gelo seco. É impossível. Há um desejo de voltar no tempo para antes de uma Revolução Francesa, para um Versailles de papel pintado. Ou então, não se limite a visitar o Leopolldo ou o Apocalipse Grill onde existem até peruas com efeitos especiais, com jóias pisca-pisca.
Vá ao aeroporto, à rodoviária. Veja o outro lado da liberdade: pernas cabeludas de short embarcando em Boeings, bermudas laranja, bonezinhos rap, camisas de basquete, tênis feios como tubarões, como jacarés, como sapos, botas de cobra, tamancos assassinos, as maravilhosas sandálias Rider, a mais feia invenção do plástico reciclado, anabelas, dedos de fora, bundas de pêra, bois de chuchu, barrigonas orgulhosas com marcas de coreanas, camisetas de deputados em campanha, carimbos de Miami em bundas de baleias. As pessoas parecem mercadorias, com griffes de contrabando. Todos parecem objetos de decoração, abajures, almofadas, pães-de-ló, cheesburgers. Há um profundo desejo de ser marca, de ser coisa. Ninguém tem nada com isso, é minha liberdade!, dirá o boçalzão de tênis fosforecente e short do Paraguay. Dane-se, é meu direito usar o que quiser!, dirá a perua de cabelo turquesa e sapato de acrílico. Realmente, neste laissez-fairisme neo-liberal da moda de hoje, tudo bem. Todos podem se pavonear no horror de sua individualidade. Mas, o espantoso é que esta idéia de liberdade vem vestida de um desgrenhamento pop, de uma visão de que o livre é o danem-se os olhos dos outros, que o livre é uma espécie de hippie careta de rodoviária ou um delírio de drag-queen de direita. Há em curso uma revolução dos escritos, de mocréias, de barangas e barangoso, há a confusão de casual com esculhambado. Através deles, vemos o horror da idéia atual de indivíduo. A musa de todos seria quem? Para os ricos, talvez Ivana Trump, este cruzamento de Lassie com Brigitte Bardot. Para os classe-médias, talvez um look Gugu Liberato vespertino, ao som de pagode. É um conformismo de individualistas bobos, de narcisistas de linha de montagem. Assim como a perua aspira a ser uma princesa imaginária de uma monarquia cafageste, os chinelo e calção, os riders e bermuda são a decadência do grunge. Glória Kalil investe com elegância contra esta pós-modernice e esboça discretas normas e rituais, discretos códigos de bom gosto.
Ela me disse uma vez que a futilidade é uma forma de violência. A violência está neste descaso para com os outros que é simétrica ao desprezo aristocrático das Maria Antonietas de cabeleireiros. Os dois maus gostos se encontram no infinito: Jecas de churrascaria e bregas-chic de discotecas se unem no mesmo horror. E todos apontam seus celulares contra nós, este acessório fálico de poder ostensivo.
Todas as conquistas da moda do século 20 foram esquecidas. Olhando uma revista como Caras, o precioso museu colorido de nossa caretice, vemos que o século 20 não passou. Não houve a arte moderna, não houve estilos. Ninguém aprendeu nada. Não houve os grandes estilistas franceses, não houve os caricaturistas, não houve Fellini, Steinberg, nada. Não houve a arte povera, os anos 60, a liberdade. Nada. Tudo se restaurou. A sociedade de consumo apenas acelerou uma democracia aparente. Uma democracia pret à porter.
A verdadeira democracia está na elegância. A elegância é diferente da futilidade, ou do luxo. A elegância é o respeito aos olhos dos outros. A elegância é uma doce equação entre a vaidade e o respeito. O look neo-liberal brega confunde liberdade de mercado com o mercado da liberdade. Chic de Glória Kalil é uma humanização da vaidade. Estávamos precisando deste livro.





