Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
É certo que houve uma desaceleração no consumo por causa da queda do Real, reduzindo o poder de compra da população, principalmente dos produtos importados venerados pela classe média. Mas esse sentimento continua latente no brasileiro, sedento que é pela aquisição de bens e produtos sobretudo se apresentados como novidades de mercado.
Essa sensação é compartilhada também em vários setores de outras áreas, como ocorre, por exemplo, nas artes. Muita gente que se dedica como produtor ou consumidor, profissional ou diletante, sente o mesmo prazer pela novidade, como um romano talvez sentisse no Coliseu vendo cristãos sendo devorado pelos leões – uma relação sádica que não se sacia.
O fetiche que o novo traz é o marco inaugural de uma nova época, modificando significados daquilo que até então era dado como absoluto. Na realidade são pouquíssimos os casos onde isso ocorreu de modo abrupto, pois é preciso que seja criado anteriormente o terreno para o nascimento de outras percepções das mesmas coisas, ou de outras que surgem no bojo dessas novas descobertas. Além disso, é claro, é preciso que o terreno esteja fertilizado. Há, isto sim, o que se pode chamar de processo evolutivo, num desencadeamento de situações que se sucedem paulatinamente. Ninguém faz revoluções fora do contexto do qual é parte.
Do outro lado dessa tendência, ficam aqueles que sofrem o horror de entender o significado do novo, quando este aparece para modificar certos valores de qualidades estéticas. Indignam-se porque sentem-se inseguros diante de seu próprio juízo e o apego é a defesa de certos procedimentos que a pessoa, ou o grupo, encontra em relação à hierarquia e ao poder sob domínio já estabelecidos. Nestes grupos se destacam os reacionários, os tradicionalistas e os conservadores.
Nesse quadro, até a procura e o consumo do novo se tornou conservadora, banalizando seu potencial transformador. Quem tem e gosta de trabalho sério, de pesquisa, não parte do princípio que é preciso ser original, único e novo para se conseguir valor estético na obra de arte. Mas de investir na singularidade daquilo que de certa forma estava escondido no interior de coisas que nem pensávamos existir e nos foi revelado.