Chegou a vez delas
As mulheres adoram. Os homens, nem tanto. A pouco mais de um ano do final do milênio, o Brasil convive com um novo fenômeno de mídia e comportamento, inimaginável pouco anos atrás. Revistas recheadas com belas fotos de homens nus invadem as residências, salões de beleza, consultórios e salas de aula, esgotando rapidamente nas bancas de revistas.
DivulgaçãoO jogador de futebol Renato Gaúcho, em foto inédita, que sairá na edição de maio da revista ÍntimaPrecursora no mercado nacional, a revista Íntima, lançada há menos de dois meses com a proposta de atender ao mercado feminino, divide espaços e atenções com a G Magazine, publicação especializada no público gay.
A diferença entre as duas é que a Íntima, que trouxe na primeira edição o ator Humberto Martins e trará na segunda o ex-jogador de futebol Renato Gaúcho, não revela o nu frontal. As fotos da G, em compensação, não escondem nada. A revista, que já publicou fotos ousadíssimas dos jogadores de futebol Vampeta e Dinei e do ator David Cardoso, entre outros, há muito tempo deixou de atender apenas ao público homossexual.
Kraw PenasRoberval dos Santos aumentou em 200% o pedido e vai contratar uma funcionária só para atender as mulheres na Banca BaviakVendemos para mulheres e não para os gays, confirma o proprietário da banca de jornais e revistas Baviak, localizada no centro de Curitiba, Roberval dos Santos. Ele conta que ainda há um certo constrangimento no momento da compra, o que faz com que algumas mulheres mandem o office boy à banca. Segundo explicou, há também as mulheres que se justificam, dizendo, por exemplo, que a revista é para dar de presente ou para fazer uma brincadeira com alguém.
Por isso, Santos está pensando em reorganizar a sua banca e em contratar uma funcionária especializada em atender às mulheres que procuram por estas revistas. O movimento compensa, pois a procura é muito grande, comenta. Ele explica que as revistas esgotam no mesmo dia em que chegam.
Albari RosaElisabete Piantek comprou a revista Íntima e se sentiu enganada. As fotos não mostravam nadaPara a segunda edição da Íntima, por exemplo, ele fará uma encomenda 200% maior do que na primeira edição. Acredito que num curto espaço de tempo estas revistas não só vão alcançar as masculinas, como a Playboy, como ultrapassar a sua tiragem, aposta o dono da banca.
Ele acredita que as mulheres estejam melhor informadas e buscando mais do que em outras décadas, o que justificaria a grande procura das revistas. Santos comenta que a G Magazine, por exemplo, era uma revista morta até que as mulheres a descobriram. É como se ela tivesse sido relançada com a edição do Vampeta, comenta.
A dona da banca de revistas Batel, Elisângela Heidorn, confirma a imensa procura por revistas que trazem fotos de homens nus. A do Humberto Martins esgotou em três dias, conta. Ela comenta, entretanto, que uma considerável porcentagem da venda é feita para homens, que se justificam dizendo que estão comprando para suas mulheres.
Uma característica típica das primeiras mulheres brasileiras que se atrevem a entrar numa banca e comprar uma revista feminina, segundo Elisângela, é a timidez. Não podemos deixar as revistas muito escondidas, pois se as mulheres tiverem que perguntar por elas, não vende, conta. Para facilitar, a dona da banca organizou uma pilha de revistas ao lado do caixa. As mulheres ainda não têm a naturalidade dos homens na hora de comprar, compara.
O sucesso de vendas percebido por cada dono de bancas no País, é computado pelos idealizadores da primeira publicação de nu masculino dirigida para mulheres brasileiras. Sete dias após o lançamento da primeira edição da revista Íntima, 85 mil exemplares já haviam sido vendidos.
Há menos de sete anos, isto parecia uma utopia para o dono da Salles Editora, responsável pelo lançamento da revista, Marcos Salles. Quando lancei o projeto, em 1992, tive dificuldades comerciais de emplacar a revista, pois o mercado ainda não aceitava isto, conta. Todos os parceiros que procurei me falavam que a idéia era arrojada demais.
O projeto foi arquivado e relançado no início deste ano. Embora as mulheres reclamem, achando que demorou muito para surgir a primeira revista dirigida a elas, eu acho que ela veio no momento certo, comenta Salles. Ele confessa que se surpreendeu com a resposta bombástica do público.
Salles comenta a preocupação da revista de incluir matérias de conteúdo, além dos ensaios de fotos. Utilizando este diferencial, a campanha publicitária da Íntima utilizou a frase: Se o seu marido reclamar, faça como ele, diga que você está comprando a revista para ler as matérias. A estratégia funcionou melhor do que o previsto.
A equipe editorial da Íntima também foi surpreendida pela exigência do público feminino por fotos mais ousadas. Diariamente, recebemos cerca de 60 e-mails com retorno de leitoras. Destes, 50% comentam que as fotos deveriam ir além.
Ele explica que a estratégia é proposital. A evolução do nu será uma tendência ditada pelas próprias mulheres, baseada em pesquisas, adianta. Ele explica que houve uma preocupação em lançar uma revista de nu frontal e ela não ser aceita pelo mercado. O processo deverá ocorrer naturalmente, afirma. Se mostrássemos tudo na primeira edição e o resultado não agradasse às leitoras, teríamos queimado a revista, explica.
Salles lembra que na década de 80, a revista Playboy mostrava apenas seios e bundas. É preciso que a evolução seja gradativa para que não haja preconceito ou constrangimento, explica.
A editora da revista, Emmy Bentson, explica que ainda não foi encontrada a fórmula ideal para fazer as fotos de nu frontal masculino sem chocar. Muitos atores e modelos acham que poderiam comprometer a sua imagem com tais fotos, decepcionando as leitoras, revela.
Ela explica que todas as fotos são feitas por fotógrafas, para garantir a visão feminina das fotos. Mesmo assim, muitas mulheres têm enviado cartas e e-mails à redação, dizendo-se indignadas com o excesso de pudor das fotos e exigindo direitos iguais. Emmy explica que a revista já deu um importante passo com o seu lançamento. Agora é dever das leitoras o caminhe para o nu frontal, avisa.
Para felicidade geral das leitoras, Marcos Salles antecipa que as fotos da segunda edição já estão bem mais ousadas do que a primeira, atendendo aos pedidos. Ele explica que o retorno das leitoras é tão importante para decidir os rumos da revista, que a publicação lançou uma pesquisa, via Internet, para saber quais são os homens brasileiros que as mulheres mais querem ver nus.
Os primeiros 579 e-mails recebidos revelam o ator Fábio Assunção em primeiro lugar na preferência feminina, seguido dos atores Marcos Palmeira, Luciano Szafir e Márcio Garcia. Os editores da revista não revelam ainda quem estará na terceira edição.





