No rastro da recente, revolucionária e original visão-homenagem idealizada por Baz Luhrmann no filme-instalação ''Moulin Rouge'', o musical insiste mais uma vez em recapturar a popularidade da era dourada de Gene Kelly e Fred Astaire, que atingiu o nível máximo de maturidade com ''Amor Sublime Amor'', ''Hair'' e ''Cabaret'' nos anos 60 e 70. Agora é a vez de ''Chicago'' (veja a programação de cinema na página 2) se colocar como prestigiosa alavanca para o processo de resgate do gênero, cercado de muita expectativa a partir da sólida performance de marketing que resultou em uma dúzia de indicações para o Oscar que será entregue no dia 23.
Embora seja evidente que o filme ofereça seriedade, brio e eficácia, ''Chicago'' parece correr riscos apenas calculados, e por isso recorreu precisamente ao gênio de Bob Fosse para adaptar um espetáculo criado por ele em 1975. Há quase trinta anos, fundado no poder visual e coreográfico de Fosse, ''Chicago'' desfilava na Broadway temas tão complexos como a manipulação da mídia, os fenômenos de massa e o poder da ambição. Como Bob Fosse, o estreante diretor Rob Marshall se mostra curtido no piso de um palco e demonstra absoluto conhecimento de causa quanto à coreografias. Mas por outro lado, sob este estrito e louvável profissionalismo se esconde uma quase total ausência de personalidade cinematográfica. Apesar de trabalhar com afinco todas as influências e inspirações do gênero, e fazer disso um produto dinâmico e formalmente irretocável, Marshall não pode evitar que o resultado global seja um filme não memorável para o gênero.
A força, a paixão e a vibrante personalidade que faziam de musicais como ''Cabaret'' peças de alta voltagem dramática estão diluídas em ''Chicago''. Como se fosse preciso assegurar acima de tudo o entretenimento, aqui a coragem e a inovação são preteridas em favor da superficialidade e da insuficiência. Apenas epidérmico, o roteiro de Bill Condon renuncia ao retrato mais profundo do meio social, e não consegue envolver emocionalmente o espectador, de resto impressionado com as deslumbrantes soluções visuais. Sob este aspecto, apesar da frenética edição tipo MTV, que não permite apreciar na totalidade o esplendor dos números musicais e que funcionava bem melhor em um produto de contundência pop como ''Moulin Rouge'', o filme está mais próximo do espírito dos clássicos dos anos 70 do que da estética pós-moderna de exemplares mais ou menos irresponsáveis como ''Dançando no Escuro'' ou ''Velvet Goldmine''.
Baseado no livro homônimo escrito em 1926 por Maurine Dallas Watkins e na montagem de Bob Fosse, John Kander e Fred Ebb, ''Chicago'' é a história de Roxie Hart (Renée Zellweger), medíocre aspirante a estrela que mata o amante enganador e convence o patético marido Amos (John C. Reilly) a contratar o inescrupuloso advogado Billy Flynn (Richard Gere) para que a defenda. Enquanto isso, na prisão, Roxie ganha os favores da supervisora Mama Morton (Queen Latifah) e o ódio crescente da detenta Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), uma diva caída em desgraça depois de assassinar a irmã e o marido pegos em flagrante. As duas presas, famintas de fama, fazem o impossível para obter a liberdade e brilhar como artistas.
Esta sátira coloca em cena os mesmos temas que fizeram famoso o original de Fosse os abusos e misérias do show business, as trapaças da justiça e os desmandos da mídia sensacionalista. Temas de resto muito explorados, mas que a estética reconstituída de uma cidade noturna e decadente como a Chicago dos anos 20, dominada pela perversão, o sexo e a corrupção, acaba convertendo em simpático anacronismo. Todas as composições da dupla Kander-Ebb são estupendas, tão boas quanto as compostas para ''Cabaret''. E a controvertida decisão de colocar no elenco atores não exatamente intérpretes ou bailarinos resulta um dos felizes achados do filme, começando pela eleição das duas anti-heroínas: a camaleônica Zellweger percorre todos os estados de espírito no papel da desconcertante Roxie, enquanto o look de Zeta-Jones a transforma na mais sedutora, fatal e explosiva melindrosa Velma com quem alguém poderia sonhar. Richard Gere é o ponto nevrálgico do elenco, embora não comprometa e até surpreenda numa extraordinária sequência de montagem entrecruzada em que sapateia no palco e simultaneamente dá um show de astúcia e picaretagem no tribunal. Outros que não decepcionam são a exuberante rapeira Queen Latifah e o sempre perfeito coadjuvante John C. Reilly como o apalermado marido de Roxie, Andy-Amos (os dois nomes são homenagem a uma dupla famosa), um personagem-vítima que cresce muito, inclusive com direito a uma das belas canções da trilha, ''Mr Cellophane''.
Por tudo que se vê sem nenhum enfado por quase duas horas, mas também imaginando que certas ambições iniciais foram ficando pelo caminho, é prudente catalogar ''Chicago'' como um filme satisfatório mas não imprescindível, dinâmico mas não vibrante, correto mas nunca genial. Para a Academia de Hollywood, que adora celebrar a si mesmo e cultiva suas memórias com carinho, o melhor filme do ano deve ser mesmo ''Chicago''.

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