São Paulo, 24 (AE) -Em entrevista Martin Scorsese definiu seu novo filme, "Bringing Out the Dead" como um retorno à saga urbana de "Taxi Driver", só que agora contando a história de um Travis tocado pela fé. Chegou a brincar com o repórter que fez a entrevista: "Afinal, esse homem que fez o filme", disse referindo-se a ele próprio, "é o mesmo que fez Kundun." Justamente "Kundun" chegou hoje às locadoras de todo o País. Lançado nos cinemas pela Lumire, o filme chega ao vídeo por meio da Paris. É um belo filme.
Aparentemente, nada mais distante das preocupações de Scorsese do que a história do dalai-lama. Afinal, ele é o homem que fez "Taxi Driver" e "Os Bons Companheiros". É atraído por mafiosos e marginais, por pequenos gângsteres que gravitam em torno de poder e dinheiro, dilacerados por demônios internos que não conseguem controlar. Até o Cristo de Scorsese dava a impressão de viver meio perdido nas esquinas perigosas da Judéia antiga. Foi, aliás, um dos motivos que provocaram tanta polêmica em "A Última Tentação de Cristo".
Contando agora a história do garoto que vira a encarnação do próprio Buda e de como o 13.º dalai-lama resiste até hoje às investidas da China sobre o Tibete, Scorsese pacifica seus demônios. O filme é a história de uma paz reencontrada. Nesse sentido, talvez seja um dos filmes mais importantes do diretor, pois Scorsese, antes de virar diretor, queria ser padre. Chegou a entrar para um seminário, mas suas dúvidas, como ele gosta de dizer, foram maiores que a sua fé. "A Última Tentação de Cristo" ainda pertence a essa fase atormentada. Kundun, comparativamente, é mais sereno.
Não que o dalai-lama, como personagem, seja destituído de dramaturgia ou não tenha de resolver seus conflitos internos e externos. Pode-se ver, por meio deste personagem único, uma espécie de reflexão sobre o homem e o Estado. O dalai-lama é um deus feito homem que encarna um Estado. Sua história é a da fragilidade política do Tibete. Scorsese fez um filme militante pelo Tibete.
Fez mais: um filme que é pura festa para os olhos e ouvidos. O cineasta cria imagens de grande beleza plástica, deslumbrantes mesmo, mas que nunca desviam a atenção do espectador para o que está sendo contado, caindo no esteticismo. Talvez um filme sobre o budismo devesse privilegiar o silêncio, mas na verdade há muita música em "Kundun". Só que é música da melhor qualidade. Philip Glass fez uma espécie de súmula de suas preocupações minimalistas, compondo um poema sinfônico em 18 movimentos de uma sonoridade entre épica e mística. Kundun (Kundun). EUA, 1997. Direção de Martin Scorsese, roteiro de Melissa Mathison. Lançamento Paris. Colorido, 120 min

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