São Paulo, 27 (AE) - Em "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça", Tim Burton exercita à vontade aquilo que tem de melhor
a sua imaginação visual. O filme, baseado numa história de Washington Irving, recria uma atmosfera de sonho, flerta com o trash, mas não se entrega a ele, e parece obra de um meninão maduro e de cabeça boa. Assim é Tim Burton, diretor do ótimo "Edward Mãos de Tesoura" e dos pelo menos divertidos "Ed Wood" e "Marte Ataca". Como não gosta de crescer, mas também não é um Peter Pan oportunista, Burton se mexe no mundo da fábula, do mito, que é o encontro possível entre o mundo adulto e o infantil.
Na história, Ichabod Crane (Johhny Depp) é o investigador que acredita na eficácia do métodos científicos, isso numa época em que era uso descobrir culpados por meio da tortura. Como incomoda seus superiores, é despachado de Nova York para um lugarejo chamado Sleepy Hollow, onde a vida sonolenta tem sido perturbada por estranhos crimes. Diz-se que um cavaleiro sem cabeça sai de sua tumba para assassinar pacatos habitantes. Faz o que um dia fizeram com ele: corta as cabeças dos outros.
Em Sleepy Hollow, Ichabod encontra situações estranhas e personagens bizarros, como a amável Katrina Van Tassel (Chistina Ricci), por quem se apaixona, e a tenebrosa madrasta da mocinha, Lady Van Tassel, vivida pela grande atriz Miranda Richardson. Vê-se em meio a uma trama em que interesses bem materiais convivem com inexplicáveis forças do além. O mítico abraça o real. É nesse território misto, nessa fronteira difusa, que Burton trabalha melhor.
Quer dizer, explora um território fabular, mas livre da arbitrariedade total do mundo mágico. Tem um pé na realidade, embora esse real sempre seja contaminado por alguma coisa que o contradiz, que o mina pela base e desmente sua segurança. Em uma palavra: trabalha na dimensão do fantástico, tal como foi definida pelo teórico búlgaro Tzvetan Todorov - são fantásticos os relatos que são construídos com base na racionalidade, até que algum elemento irracional faz sua súbita irrupção e coloca tudo de cabeça para baixo. Assim funciona Tim Burton, que provavelmente nunca na vida ouviu falar de Todorov, ou pensa que se trata de algum obscuro escritor russo de histórias em quadrinhos.

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