São Paulo, 03 (AE) - Uma boa intriga amorosa, daquelas dignas de Choderlos de Laclos, ambientada na Inglaterra vitoriana e temperada pelo humor ferino de Oscar Wilde. É assim "O Marido Ideal", bonita adaptação da peça de Wilde, transposta para a tela por Oliver Park. O marido ideal do título é sir Robert Chiltern (Jeremy Northam), político bem-sucedido, negociante rico, companheiro perfeito para a sua Gertrude (Cate Blanchett). Ele é amigo do doidivanas lorde Arthur Goring (Rupert Everett), conquistador e bon vivant, sem nenhuma vocação para o trabalho e menos ainda para o casamento.
O pai dele é um milionário e vive tentando encontrar uma mulher para o filho, pois acha que já chegou o tempo de ele tornar-se um homem sério. Na periferia do grupo circula Mabel (Minnie Driver), irmã de Gertrude e secretamente apaixonada pelo playboy. O grupo é esse e tudo parece funcionar razoavelmente entre eles, até que chega de Viena a malévola senhora Cheveley (Julianne Moore) para instilar o veneno e jogar todos contra todos. Por quê? Ela tem um bom motivo, segundo seu ponto de vista.
Investiu pesado em ações de um empreendimento duvidoso, um canal que seria construído na Argentina para unir o Atlântico e o Pacífico. Chiltern é uma espécie de relator do projeto. Se ele se pronunciar a favor, a obra segue adiante; senão, pode parar e trazer prejuízo para quem investiu nela. É a regra do jogo e é o caso da senhora Cheveley. Ela descobre que Chiltern vai pronunciar-se contra. Acontece que Cheveley sabe de uma passagem comprometedora no passado de Chiltern.
Passa a chantageá-lo, pois possui um documento que prova a traição cometida por ele contra seu país. A revelação ameaça o futuro político, a fortuna e o casamento de Chiltern. É nessa rede de intrigas que a história se passa. Mundo frívolo - E não deixa de ser interessante como história, mesmo porque o texto de Wilde é excelente. Cada fala é afiada como navalha. Cada frase, cheia de subentendidos. E cada um dos interlocutores parece querer enganar seu semelhante, ao mesmo tempo em que protesta sua amizade ou amor. Não chega a ser o universo de Choderlos de Laclos, o escritor do clássico "Ligações Perigosas". Este, sim, era uma cascavel, pintor de um universo hobbesiano, em que jogos amorosos obedecem a estratégias e táticas de guerra. Assim, em Laclos, um flerte inocente convertia-se numa verdadeira batalha de posições.
Wilde, lido por Oliver Park, não chega a essa radicalidade. Seu texto comenta um mundo superficial, frívolo, mas não de maneira implacável. A senhora Cheveley é "do mal", como se diz hoje em dia. E o texto contenta-se com ela como representante do maniqueísmo. Os outros têm seus defeitos e pecadilhos, mas não são de jogar fora como seres humanos. Gertrude é esposa amantíssima. Sua irmã, Mabel, uma moça casadoira e convencional. Lorde Arthur é um estróina de alma generosa e mesmo Chiltern, que pecou no passado, tem nobreza de alma para redimir-se no presente.
É o tipo do filme para deixar o espectador satisfeito. Ambientação de época perfeita, bons diálogos, atores soberbos, uma direção sóbria. O que se pode querer mais? Bem, talvez que o filme fosse menos acadêmico. Alguma ousadia na filmagem, nos enquadramentos, poderia evitar o ar démodé que se sente às vezes. Mas a verdade é, tirando esse conservadorismo relativo, assiste-se bem a ele. E isso apesar do tom excessivamente teatral da adaptação. Parker
aliás, nem disfarça essa vocação stagy do filme. Antes, procura sublinhá-la como para se vacinar de possíveis críticas.
Tudo se passa como num teatrão, daqueles bem convencionais. Vozes impostadas, conversas ouvidas por trás das portas, um entra-e-sai de personagens como só é possível num palco italiano. Coincidências dignas de uma novela da Globo. E, para acentuar o efeito, a "peça dentro da peça", quando os personagens vão assistir a uma representação de "The Importance of Being Earnest" - a "Importância de Ser Honesto", ou Ernesto, segundo alguns, de Oscar Wilde. Com direito aos cumprimentos do próprio Wilde (Michael Culkin) no palco, ao fim da peça.
Questão de talento - Há sempre alguma coisa em Wilde, preservada por Parker, que vai além da mera comédia de costumes de uma época dada. Por exemplo, o personagem de Jeremy Northam, Chiltern, é um bom homem do presente (na relação temporal da história), embora tenha um feio passado pelas costas. É como se o dramaturgo desconectasse uma coisa da outra e afirmasse que personagens (e portanto as pessoas) não são inteiramente bons ou maus, mas na maior parte das vezes uma mescla de uma coisa e outra. Opção estética e política, considerando-se a época de Wilde. A exceção é para a naja representada por Julianne Moore, essa, sim, uma pérfida de antologia. Aliás, o filme serve também para mais uma vez mostrar que bela atriz é Julianne Moore, já vista em títulos como "Short Cuts" - "Cenas da Vida", de Robert Altman, e "Tio Vanya em Nova York", de Louis Malle. Sua sutileza de interpretação, a capacidade de sugerir um clima com uma entonação de voz ou um simples olhar fazem toda a diferença. Afinal, sem uma vilã de qualidade, uma história como a de "O Marido Ideal" não seria nada.

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