Chauí explica filosofia de Spinoza
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de abril de 1999
Zeca Corrêa Leite 
Deus criou o homem e deu-lhe liberdade para seguir os caminhos do bem ou do mal, facultando-lhe assim a capacidade de pecar. Então por que criou a punição? A menina Marilena Chauí, vinda de família de austera formação católica, optou pelos estudos da Filosofia na tentativa da equação do problema escolástico. Foi assim que chegou ao pensador holandês Baruch Spinoza (1632-1677) e sua crença tomou outro rumo. A Nervura do Real - Imanência e Liberdade em Spinoza, que teve ontem uma sessão de autógrafos na Secretaria da Cultura, em Curitiba, é fruto desse envolvimento spinozano.
O mestre mereceu da filósofa um trabalho de livre docência, que ela queria a todo custo transformar no livro que acaba de sair pela Companhia das Letras. Começou a escrevê-lo, mas ao aceitar o cargo de secretária da Cultura do município de São Paulo, no governo de Luiza Erundina, deixou uma frase incompleta, que terminava numa vírgula. O papel permaneceu na máquina de escrever por quatro anos.
De volta à filosofia depois do mergulho na política, era outra a Chauí que retornava. Até mesmo a vírgula não era mais a mesma. Então, de janeiro de 1993 a outubro de 1998, dedicou-se à feitura do primeiro volume, de 900 páginas, que se ocupa praticamente sobre o tema Deus. Um segundo trabalho, voltado ao homem, está sendo escrito.
Em entrevista coletiva concedida na tarde de quarta-feira, Marilena discorreu didaticamente sobre as crenças greco-romanas e judaico-cristãs, que embasam o pensamento de todas as religiões, sustentando-se na espiritualidade. Para Spinoza, Deus é energia pura, ou seja, matéria. O espírito está fora de cogitação, assim como qualquer tipo de religiosidade.
O imaginário religioso ao casar-se com o fator político forma a superstição, que por sua vez é um instrumento de comando do homem. Na concepção do holandês, Deus não é uma pessoa, não possui inteligência nem vontade, nem é o Criador de todas as coisas. Ele é energia universal e todos nós somos expressões universais dessa energia, feitos unicamente de corpo e mente. Não se cogita aqui falar do espírito.
A mente é consciente da vida do corpo, e neste caso o conceito do bem e do mal divide-se entre o que é útil para nossa conservação (o bem) e o que não é (o mal). Também a liberdade não segue a tradicional visão do livre arbítrio, mas ela existe através de um corpo internamente forte, como explicou Marilena. À medida que a pessoa sabe realmente de si, é cada vez mais liberta.
A Nervura do Real - Imanência e Liberdade em Spinoza foi escrito para três camadas de público: ao leigo, que leia e diga que quer conhecer Spinoza; ao universitário, que igualmente poderá se interessar pelo pensamento do filósofo e aos estudiosos de Spinoza que terão ali uma fonte comparativa, criando paralelos com outras correntes opinativas.
Há um porém, tanto para o leigo como para o universitário - ler Baruch Spinoza é muito difícil, como relatou a própria Marilena Chaui. Ainda jovem ela tentou lê-lo, mas não conseguiu. Lia algumas páginas e fechava o livro, confessou.


