Charlie Haden abre o Heineken Concert
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quarta-feira, 07 de abril de 1999
Carlos Callado Agência Folha 
As músicas de Cuba, Brasil e EUA ainda serão uma só. Essa antiga previsão do jazzista Dizzy Gillespie começa se concretizar no Heineken Concerts 99, que começou ontem em São Paulo.
Promovendo encontros entre jazzistas norte-americanos, músicos cubanos e instrumentistas e intérpretes da música popular brasileira, o festival promete realizar sua edição mais ambiciosa. O contrabaixista e compositor norte-americano Charlie Haden foi a atração principal de ontem, no teatro Alfa Real. Além de se apresentar com seu grupo de jazz, o Quartet West, Haden tocou alguns números com o pianista e compositor carioca Egberto Gismonti, seu antigo parceiro. Eu sempre estou ansioso por voltar a tocar com Gismonti. Ele é um dos gênios da música, disse Haden.
Quem abriu a noite, com uma exibição de piano-solo, foi o talentoso cubano Gonzalo Rubalcaba, outro ex-parceiro de Haden. Um possível reencontro ainda não tinha sido acertado entre eles antes de Haden embarcar para o Brasil, mas, se depender do norte-americano, tem tudo para acontecer. Já gravamos quatro discos juntos, e eu espero que possamos gravar outro logo. Eu adoro a música de Gonzalo. Dono de um invejável currículo musical, Haden já tocou com vários astros do gênero, como Keith Jarrett, Pat Metheny, Chet Baker, Carla Bley, Don Cherry e Branford Marsalis. Sua carreira decolou no final dos anos 50, quando se associou ao jazz de vanguarda do saxofonista Ornette Coleman, que marcou sua concepção musical.
Uma década depois, Haden formou a polêmica Liberation Music Orchestra. Com um repertório recheado de referências a injustiças sociais, em diversos cantos do mundo, essa vanguardista big band de formação instrumental pouco comum ganhou um tom marcadamente político.
Ainda que suas composições não cheguem a soar panfletárias (mesmo abrandada, a estética do free jazz permanece), Haden já enfrentou reações violentas. Chegou a ser detido e convidado a se retirar de Portugal, por suas críticas ao colonialismo na África. Em 1986, ao formar o Quartet West, Haden realizou seu projeto mais popular. Com Ernie Watts (sax), Alan Broadbent (piano) e Billy Higgins (substituído mais tarde pelo baterista Larance Marable), já lançou cinco álbuns, que exibem um jazz mais convencional, com toques de nostalgia. Nosso próximo álbum vai se chamar The Art of the Song e tem participações de Shirley Horn e Bill Henderson, nos vocais. Os arranjos são de Alan Broadbent, que rege uma orquestra de cordas, revela o contrabaixista.
Outro projeto no qual Haden vem trabalhando atualmente é um álbum de duetos com o pianista Brad Mehldau. Ele é um dos poucos músicos jovens que eu considero realmente inovadores.
Enquanto músicos mais conservadores, como o trompetista Wynton Marsalis, apostam no jazz como a música clássica do futuro, Haden tem uma visão diferente. Eu espero que um dia as categorias deixem de existir. Então só vai haver música, sugere o contrabaixista norte-americano, com um certo romantismo.
Escalado para a noite de encerramento do festival (sábado, no Alfa Real), o guitarrista mineiro Toninho Horta também comanda um workshop, hoje, às 19h30, no Conservatório Souza Lima. Além de falar sobre técnica, harmonia e composição, Horta promete tocar composições próprias para ilustrar suas dicas musicais.Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)O contrabaixista Charlie Haden e trio: sua carreira decolou nos anos 50 quando se associou ao jazz de vanguarda de Ornette ColemanO contrabaixista norte-americano Charlie Haden abriu ontem a edição paulistana do Heineken Concert


