Charlie Brown para brasileiros
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Marco Bezzi<br> Agência Estado 
A história de um ex-líder do esquadrão de metralhadoras da Segunda Guerra Mundial capaz de produzir uma das tiras mais populares do mundo parece parte de um roteiro de ficção. Mais do que apenas mostrar seu talento em páginas e páginas de jornais, Charles M. Schulz (o ex-líder do esquadrão) sucumbiu à necessidade dos adultos de alimentar sua criança interna. Ele é o criador de Charlie Brown, um garoto solitário e contemplativo, cheio de dúvidas e incertezas.
O primeiro volume de ''Peanuts'' - como eram chamadas suas tiras diárias - chega, finalmente, ao mercado brasileiro. Compilando os anos de 1950 a 1952, o calhamaço de 348 páginas introduz personagens definitivos no universo infantil de Charlie Brown, como a infernal Lucy, o fã de Beethoven Schroeder, o cachorrinho Snoopy e Linus e seu cobertor inseparável. O livro ainda traz uma introdução sobre o trabalho de Schulz, um ensaio sobre o autor e uma entrevista realizada em 1987.
Foi no dia 2 de outubro de 1950 que Charlie Brown, o garoto rechonchudo de poucos fios de cabelo, apareceu pela primeira vez. Desde então, ficava claro que ''Peanuts'' quebrava o paradigma de que quadrinhos deveriam ser repletos de aventuras e histórias com final feliz. ''Como eu odeio ele'', foi a primeira fala com intenção ''cômica'' dos quadrinhos de Schulz. Nos anos 50, Charlie Brown foi até chamado de ''o mais jovem dos existencialistas''.
Seu criador (Schulz), filho de um barbeiro, nasceu em 1922 nos Estados Unidos e era uma criança-prodígio. Schulz pulou duas séries e foi direto para o ginásio. Pequeno, inseguro, transformou sua rotina em solidão, assim como seu personagem principal, Charlie Brown. Cheio de espinhas, orelhudo e magrelo, Schulz tinha poucos amigos no colégio, era inadequado ao meio que frequentava.
Em fevereiro de 1943, com a morte de sua mãe e sua ida para o exército, uma nuvem de melancolia o acompanharia. Charles M. Schulz partiu para o mundo dos quadrinhos logo que voltou das trincheiras da Europa. Ler suas tiras é entender um pouco de sua filosofia de vida.
Foram 17.897 tiras que duraram cinco décadas. No auge de sua popularidade, nas décadas de 70 e 80, ''Peanuts'' era lida por 355 milhões de leitores e todo o universo de merchandising dos personagens proporcionava ao quadrinista rendimentos de 30 a 40 milhões dólares por ano.
Schulz foi o quadrinista mais bem pago e mais influente de todos os tempos. Em 1969, com seu especial ''O Natal de Charlie Brown'', o desenhista levou 55 milhões de telespectadores para a frente da TV e ainda levou o Emmy no ano seguinte.
No dia 14 de dezembro, Schulz anunciou sua aposentadoria e logo depois faleceu. Seu biógrafo, David Michaelis, apresentou os últimos passos desse herói no final deste primeiro volume: ''Depois de quase 50 anos desenhando 'Peanuts', em janeiro de 2000, o quadrinista aposentou sua caneta, já com a vista embaçada. Ser um autor de tiras de quadrinhos era tudo o que ele sempre quis. Na fria e chuvosa noite de 12 de fevereiro em Santa Rosa, Schulz foi para cama pouco depois das nove e puxou as cobertas até a cabeça. Às 15 para as dez, poucas horas antes de a última tira de 'Peanuts' ser publicada em dezenas de jornais de domingo ao redor do mundo, Charles Schulz morreu - sua vida e sua arte chegaram ao fim exatamente ao mesmo tempo. Assim que deixou de ser quadrinista, deixou também de viver''.
Serviço
- Peanuts completo é editado pela L&PM, tem 360 págs. e custa R$ 68.


