Charles Lloyd mostra seu novo disco no encerramento do festival
São Paulo, 05 (AE) - O encerramento do Free Jazz Festival, no domingo, 17 de outubro, às 23 horas, é aquilo que se classificaria, clichê dos clichês, de imperdível. Vai estar sendo mostrado ali o novo disco do saxofonista Charles Lloyd, "Voice in the Night", que representa o retorno do músico à sua seara americana - após um longo auto-exílio. Mais do que isso, o disco traz também uma reunião solar: o baterista Billy Higgins e o guitarrista John Abercrombie, dois veteranos que têm uma ficha curricular de quarteirão de distância.
Tirando o fato de que o próprio Lloyd (que, afinal, mostra sua sutileza ao longo de todo o disco) é uma lenda, aí está uma reunião que deve ser reverenciada. Lloyd foi o responsável, entre outras coisas, pelo lançamento de Keith Jarret e Jack DeJohnette. É o sexto disco de Lloyd pelo selo alemão ECM e a faixa que dá título ao disco, "Voice in the Night", resume toda a história. O fraseado elegante do saxofonista e a cozinha segura e quase invisível (no bom sentido) de Higgins dominam a canção e o cenário.
Lloyd é tido como um contraventor do jazz, como Sun Ra e Pharoah Sanders. Ao contrário de seus parceiros, no entanto, ele não saiu em busca da música de um mundo exótico para contaminar seu jazz. Contaminou-o usando os próprios códigos do gênero. Mas "Voice in the Night" é um disco-exceção, mesmo em sua trajetória (que, recentemente, nos deu grandes trabalhos, como "The Call" e "Notes from Big Sur"). Parece preocupado em reavaliar o próprio trabalho, remexendo no arquivo pessoal de clássicos. Como em "Forest Flower" (título do disco que o levou a vender 1 milhão de exemplares, em 1966). Em "Homage", Lloyd, Abercrombie e Higgins brincam de citar a si mesmos, como garotos com um brinquedo novo nas mãos. Abercrombie mostra aí por que é considerado um dos melhores do seu instrumento no jazz. Apenas em "Doroteas Studium", Lloyd rende-se à música mexicana, à investigação étnico-musical, só que com um tema pungente e delicado.
Outros passeios de Lloyd estão em "A Flower Is a Lovesome Thing" (de Billy Strayhorn) e "God Give Me Strength" (ressuscitada na parceria recente de Elvis Costello e Burth Bacharach). O disco tem a produção de um alemão, Manfred Eicher, mas não mantém a divisão cultural na qual Lloyd havia se enfiado ultimamente. É uma noite obrigatória do festival. (J.M.)





