CHARGISTA LANÇA LIVRO EM FOZ
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de agosto de 2000
Emerson Dias De Foz do Iguaçu 
Os rascunhos dele são os mais conhecidos e temidos da região oeste do Paraná. Políticos, autoridades, socialites, ninguém escapa dos seus desenhos pitorescos e picarescos, como diz sempre um amigo. Para os seus colegas jornalistas, tão importante quanto ser dono de um bom traço, é ter a capacidade de condensar os acontecimentos do dia em um único esboço. E isso, dizem, o Heitor consegue fazer como ninguém em Foz do Iguaçu. Principalmente agora, depois de 20 anos de trabalho e mais de 3 mil charges publicadas.
O chargista, escultor e pintor Francisco Heitor Fernandez, 45 anos, nasceu na cidade mas viveu sua adolescência em Curitiba, onde morou com os pais até os 20 anos. Foi cursando Belas Artes na capital que desenvolveu o traço, conhecido na época apenas pelos colegas e parentes. Quando casou, em plena década de 60, o Brasil vivia os horrores da ditadura militar, regime que impôs uma perseguição política generalizada também no Estado e principalmente na região de fronteira, onde agentes da Operação Condor transitavam livremente à procura de fugitivos latinos escondidos nos países vizinhos. Foz foi uma das últimas cidades a ter um interventor no comando. Decidi voltar pra cá e, com o meu trabalho, tentar mostrar à população o que estava acontecendo de errado.
Começou a trabalhar como jornalista e chargista no Nosso Tempo, um periódico produzido pelo então jornalista argentino (e exilado político) Aloísio Palmar, e desde então não parou mais. Segundo o velho amigo e editor, muitas vezes o leitor começava a ler o jornal do final para o início, já que a última página era de Heitor.
Como muitos colegas do jornal, foi perseguido pelos militares e mesmo assim nunca deixou de trabalhar. Cheguei a mudar o traço e usar um pseudônimo (Gandhi) para continuar publicando minhas charges. Provocamos muita gente da caserna, comentou Heitor, relembrando também que muitos dos seus trabalhos foram publicados em jornais e revistas alternativos da Argentina e do Paraguai. No Brasil, colaborou em diversas publicações estaduais e nacionais, mas lembra que seu maior orgulho foi participar do 3º Salão de Humor do Mercosul, exposição itinerante realizada no ano passado e que levou seu nome a dezenas de cidades dos quatro países pertencentes ao mercado comum.
Vinte anos depois, o desenhista tornou-se empresário (chegou a cursar administração de empresas) e hoje possui o próprio jornal, produzido semanalmente. Além da última página, a penúltima também é dele e sempre está repleta de charges, alfinetadas políticas e críticas sociais. Heitor cria a partir de temas nacionais, mas jamais esqueceu os problemas da cidade. Para ele, como a charge é sintetizada em um único quadro - diferente das sequências produzidas em HQs -, é necessário trabalhar com a precisão cirúrgica dos mísseis modernos. O leitor precisa ver o desenho e sentir que é aquilo que está preso na garganta dele, que está sufocado. O lado irônico é complemento da crítica.
Para comemorar as duas décadas de mãos sujas pela tinta, Heitor está lançando um livro com o título Pega Ladrão, onde foram reunidas 140 charges. Este é apenas o primeiro de uma série. Acho que é possível contar a história social e política da cidade com desenhos e é isso que vou fazer.


