CHAPADA DIAMANTINA - Aventura em contato com a natureza
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de agosto de 2002
Antônio Paulo Pavone<br> Especial para a Agência Estado 
Quando o continente sul-americano se desprendeu da África, há centenas de milhões de anos, arrastou em seu ventre a massa subterrânea bruta, ígnea, de onde emergiriam, no século 19, os ricos diamantes do sertão baiano, no mesmo útero onde o Brasil foi gerado. Esgotada a riqueza diamantina, resta, agora, ainda intacto, o território da criação desse mundo antigo.
São paisagens dos tempos em que os dinossauros passeavam pelos vales profundos e serras verdejantes. Tudo emoldurado por coloridos jardins suspensos, onde brotam orquídeas, bromélias, velozias e outras pequenas flores. E nesse mapa se inserem ainda resquícios dos velhos garimpos da Chapada Diamantina, hoje preservada por um parque nacional de 152 mil hectares.
Lá podem ser feitas travessias com boa dose de aventura e menos conhecidas dos simples turistas. É o caso dos trekkings do Vale do Pati, que dura três dias considerado o novo caminho de Santiago , e da Cachoeira da Fumaça pela Serra do Veneno, que passa por um lugar com muros de pedra e tocas abandonadas pelos mineradores. Menos radical é a travessia Lençóis-Vale do Capão, de 25 quilômetros.
No total, foram mapeadas 40 trilhas na região da Chapada, muitas delas desconhecidas da maioria dos viajantes. Ali, hoje, o ser humano arrisca tudo: rapel, mergulho, espeleologia, canyoning e até bons momentos de preguiça ao sol.
O ponto de partida da maioria dos programas é Lençóis, antiga cidade de garimpeiros, declarada Patrimônio Histórico pela Unesco. E o melhor: tem aeroporto local, pequenas e aconchegantes pousadas, restaurantes típicos, som ao vivo, artesanato, guias especializados, gente simples e hospitaleira. Por oferecer tudo isso, esse destino do sertão da Bahia já é um clássico do ecoturismo nacional. E, apesar do progresso, a melhor maneira de se misturar com o cenário feito de água, flores e pedras ainda é caminhando.
O parque nacional abrange os municípios de Lençóis, Andaraí, Palmeiras (onde fica a sede do Ibama), Ibicoara e Mucugê, num perímetro de 110 km. Viajantes do Brasil e do mundo procuram essa terra misteriosa em busca de suas energias cósmicas, carne de sol e axé. A região também dá um banho de história. Tudo começou com a chegada de Spix e Martius, naturalistas alemães que descobriram o veio diamantífero, no início do século 19.
A notícia se espalhou e os garimpeiros vieram. Vilas nasceram e se expandiram rapidamente. Lençóis, hoje com 4 mil habitantes, chegou a ser a terceira maior cidade da Bahia no auge desse ciclo. Na época, dizem os antigos, encontravam-se diamantes até em papo de galinha.
Hoje, a Chapada vive o ciclo econômico do ecoturismo, onde a prosperidade depende da conservação e não da exploração da natureza. Esperemos que dure para sempre.


