Cesta básica musical
ReproduçãoComo sempre, Gilberto Gil se mostrou paciente para responder, com a deliciosa verborragia que lhe é característica, a perguntas subjetivas e objetivas feitas por jornalistas durante a entrevista coletiva do lançamento de Ensaio Geral. Foi na sede da gravadora Universal, no Rio de Janeiro, anteontem no começo da noite. Deixou bem claro que está satisfeitissíssimo com o formato e com o volume do projeto, independente do preço que vai chegar ao consumidor.
É como se fosse uma cesta básica em se que tem que levar para casa todos os produtos que ela contém. Não se pode pensar no arroz sem se pensar no feijão - argumenta ele .Se fosse para dar o produto isolado perderia-se um pouco o foco dessa idéia do período histórico - complementa. Entretanto, é sobre o CD Louvação, primeiro disco solo, de 69, que Gil põe olhos mais carinhosos. É muito simbólico para mim - resume.
A verdade, no entanto, é que todos os CDs relançados foram acarinhados pelo compositor pelo fato de mostrarem suas diversas fases musicais. E claro, numa coletiva com Gil, pedir opinião sobre a Tropicália é condição sine qua non. Como um dos fundadores do movimento, Gil diz que o exílio em Londres apenas interrompeu seu processo de criação aqui, mas não afetou muito as propostas tropicalistas. O tropicalismo não era um projeto com metas e prazos a ser cumpridos. O que havia era uma série de sentimentos, sensações e noções sobre o que era o meio cultural no qual atuávamos e quais seriam as pequenas transformações imediatas que poderíamos propor - analisa.
Já na condição de exilado político Gil acabou por se achegar e receber as vibrações roqueiras que influenciariam e muito sua obra. À pergunta, se ficasse mais em Londres, retornaria ele ao Brasil um roqueiro por excelência ou apenas um fascinado admirador a distância do gênero? Ele responde: Se ficasse mais tempo por lá provavelmente eu teria ido mais para a área do ruído, do barulho - analisa.
As drogas no seu processo criativo também renderam bons minutos de análises. Gil passou por experiências lisérgicas (ácidos) e também por algo mais light, como a maconha, isso é fato. Porém, para ele tais experiências foram feitas dentro de, digamos assim, um contexto de época. Droga era um ingrediente entre outros tantos daquela época. Quem era in ou queria passar por dentro dos túneis de seu tempo tinha que fazer experiências transformadoras de estados de espírito. Tinha um pouco de: Você já foi à Bahia? Então vá - diz bem-humorado.
Hoje ele diz não mais encontrar sentido para utilizar tais artifícios. E fala sem posar de puritano ou conselheiro. Parei de usar maconha quando senti que que ela começou a fazer ruído no corpo e silêncio na mente - diz ele.
Planos profissionais, muitos. Entre eles, a gravação de um programa para TV, idealizado pelo sociólogo Hermano Vianna, sobre o folclore brasileiro, onde seria apresentador e comentarista. Em sua agenda há também uma participação no documentário sobre o grupo Filhos de Gandhi e, a curtíssimo prazo, quer realizar o Panorama Percussivo Mundial (Percpan), do qual é diretor musical, que acontece no final deste mês em Salvador.
Ah, sim, o Grammy não poderia ser deixado de lado. Em resumo, Gil está lisonjeado, feliz. O prêmio deve chegar dentro de um mês. Mas pelo jeito ele não deve promover nenhum auê quando, finalmente, tiver o troféu nas mãos. Sabe onde estão os discos de ouro que ganhei? No banheiro de minha casa - disse. Então tá, né?! (A.M.J.) -





