César, um prêmio doméstico
Em sua 28 edição, o prêmio César (pronuncia-se César) é mais recente e bem mais doméstico - leia-se nacionalista - que o vizinho BAFTA. Por duas razões: o cinema francês é de longe o mais sólido e importante da Europa, com uma indústria produzindo com regularidade. E é o único em toda a Europa asfixiada por Hollywood que garante significativa ocupação de mercado interno diante das pressões do similar norte-americano, de resto uma declarada salvaguarda do filme como produto e bem cultural (em primeiro lugar) e econômico.
O César surgiu em 1976 como tardia resposta ao Oscar, e paradoxalmente em tempo de vacas magras. A ''nouvelle vague'' já ia longe, os americanos desembarcavam aceleradamente com Lucas, Spielberg, Coppola e Scorsese e a televisão ocupava quase todos os espaços. Mas com o tempo, e acompanhando a evolução da indústria local do filme, o César mostrou-se útil objeto de marketing, afixando nas produções nominadas uma espécie de selo de qualidade para os profissionais envolvidos. A inspiração no modelo Oscar foi evidente em muitos aspectos.
Como em Hollywood, os acadêmicos franceses votam por categorias (atores em atores, diretores em diretores), recompensando o trabalho profissional segundo seus critérios e gostos. Como no Oscar, o César oferece uma gama de nominações sempre variada: da comédia ao filme de época, passando por dramas ou filmes espetaculares. E como em Hollywood, a Académie des Arts et Techniques du Cinema, uma espécie de clube hoje com 2.200 membros, também é capaz de muitas bobagens: injustiças, esquecimentos, gafes, prêmios absurdos. Como o reconhecido insulto imposto à comédia como gênero, quase sempre relegada a segundo plano. Ou como o conservadorismo em boa parte das premiações nessas quase três décadas do premio. Ou, afinal, como a cerimônia em si
mesma, quase sempre considerada sem graça, cenograficamente pobre, sem imaginação, embolorada e pomposa.
Este ano os críticos do César estão mais ácidos e céticos, como consequência de uma alegada falência artística do cinema francês, em que pese a riqueza e a diversidade de propostas ainda vigentes. Apontam muitos equívocos nas nominações, em especial ausências inexplicáveis e critérios desastrosos como motivação da baixa credibilidade da premiação e fator capaz de minar o entusiasmo do publico. Se ganhar hoje o premio de melhor filme, o muito elogiado documentário ''Etre et Avoir'' seria o primeiro do gênero
a levar a estatueta. E este fato inédito poderia aliviar um pouco as críticas.
(C.E.L.J.)





