Solo, mas não só. Companhia é o que não faltou a Herbert Vianna durante as gravações de ‘‘O Som do Sim’’, seu terceiro disco sem as presenças de Bi Ribeiro e João Barone, os parceiros nos Paralamas. O disco, que está chegando às lojas do país nesta metade de setembro, soa como um trabalho coletivo tal a quantidade de colaboradores e participantes espalhados ao longo das 11 faixas.
Herbert divide os vocais em todas. Perto dos anteriores ‘‘Ê Batumaré’ (1992) e ‘‘Santorini Blues’’ (1997), feitos confessadamente sem ambição, o novo álbum revela-se uma superprodução para a qual foram recrutados 75 músicos e utilizados nove estúdios do Rio de Janeiro durante os três meses de gravação. Combinando guitarra, naipe de cordas com scratches e bases eletrônicas, o disco reúne canções pop de própria lavra, duas parcerias e uma versão de ‘‘In Between Days’’, hit memorável da banda inglesa The Cure.
Herbert cercou-se de vozes femininas. A idéia original do disco, aliás, era registrar composições suas já gravadas por outros intérpretes. Quando notou que a maioria do material vinha de cantoras – entre elas Marina, Gal Costa, Paula Toller , Daniela Mercury, e Ivete Sangalo –, decidiu manter o mulherio no projeto, mas em vez de músicas conhecidas optou por um repertório inédito.
Com exceção de Moreno Veloso (o filho mais velho de Caetano) em ‘‘Um Truque’’ e Black Alien em ‘‘O Muro’’, as demais trazem duetos com cantoras famosas e outras ainda desconhecidas. Na canção mais roqueira, ‘‘Mr. Scarecrow’’, ele tenta competir nos graves com Cássia Eller. Em ‘‘Partir, Andar’’, divide o microfone com Zélia Duncan sob arranjos de Eumir Deodato.
Acompanhado de Fernanda Abreu, canta a impotência diante da violência urbana em ‘‘História de Uma Bala’’ (‘‘Há quem pense em matar pra não morrer / Há quem pense em morrer pra não sofrer / Às vezes penso em fugir / Às vezes só penso em fugir daqui’’). A propósito do tema, uma dolorosa coincidência envolveu a canção ‘‘A Mais’’, escrita a quatro mãos com Pedro Luís e cantada a dois com Fernanda Takai (Pato Fu).
Três dias depois da composição ficar pronta, a irmã de Pedro Luis foi morta durante uma tentativa de assalto no Rio de Janeiro conferindo um tom emblemático à letra (‘‘Não quero um dia a mais / Quero um dia de paz’’). O horror cotidiano no Brasil contemporâneo é retomado com Sandrá de Sá, mas num registro esperançoso em ‘‘Vamos Viver’’ (‘‘Vamos viver só de amor / E não ter que pensar, pensar / No que está faltando, no que sobra / Nunca mais ter que lembrar, lembrar / De pôr as travas e trancas nas portas’’).
O grande destaque do repertório, todavia, é a bossa ‘‘Hoje Canções’’ em que o líder dos Paralamas canta com Nana Caymmi sob arranjo, regência e co-autoria de Paulo Sérgio Valle. Desponta também a releitura lounge de ‘‘In Between Days’’, do The Cure, com Érika Martins (do Penélope) fazendo a segunda voz. O contraste infeliz aparece na faixa ‘‘Eu Não Sei Nada’’, onde a interpretação contida de Herbert colide com a aspereza vocal da novata Luciana Pestano, uma gaúcha já com um disco gravado e que o anfitrião conheceu durante um show em Paris durante a última Copa do Mundo.
Para gravar ‘‘Une Chanson Triste’’, dedicada a Renato Russo, Herbert chamou Daúde fechando o grupo de cantoras. Por ser um trabalho paralelo, ele não planeja fazer a turnê promocional do disco, mesmo porque não teria estrutura para levar ao palco tantos músicos e convidados especiais. Os fãs só poderão vê-lo na estrada com os Paralamas, que aliás lançam uma coletânea em novembro cobrindo o período 1990-2000.

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