Cerâmicas de Picasso são expostas no Rio
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domingo, 05 de dezembro de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 05 (AE) - Durante os 22 anos em que morou no sul da França, Pablo Picasso dedicou-se à cerâmica e foi retratado pelo então jovem fotógrafo André Villers. Os cariocas vão conhecer parte dessa produção a partir desta segunda-feira (06), quando será inaugurada apenas para convidados (na terça-feira será aberta ao público), na Casa França-Brasil, a exposição Cerâmicas de Picasso, com 80 peças que pertencem ao neto dele, Bernardo Ruiz Picasso, 27 fotos do artista trabalhando e 9 cartazes de outras mostras desenhados pelo próprio Picasso.
Se até agora o Rio não havia recebido obras do artista, desde março duas mostras foram realizadas. A primeira foi a Suite Vollard, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com gravuras. Em julho o Museu de Arte Moderna (MAM) trouxe obras (pinturas, gravuras e esculturas) do Museu Picasso de Paris, na exposição Anos de Guerra. A mostra de cerâmicas fica até janeiro e talvez vá a outras cidades, dependendo de acertos com Bernardo Ruiz Picasso, que vem ao Rio para a sua inauguração.
"É importante levar a obra de meu avô a pessoas que ainda não tiveram contato com ela", disse por telefone, de Paris, o neto de Picasso e da bailarina russa Olga Koklova, a terceira mulher do artista. "Essas peças são da minha coleção particular e vão formar o Museu Picasso, em Málaga, na Espanha, cidade onde ele nasceu e morou até a juventude." Os vasos, pratos e quadros que compõem a mostra já foram levados, com peças de outros colecionadores, ao Metropolitan de Nova York e à Royal Academy, em Londres.
Não foi fácil trazer as cerâmicas para o Rio. Por serem frágeis, o local de exposição deve ter umidade, luz e nível de trepidação adequados, o que exigiu adaptações na Casa França-Brasil. As vitrines em que serão colocadas as peças têm revestimento especial e o iluminador Maneco Quindaré projetou uma luz que permite a visibilidade perfeita das obras, sem prejudicar sua coloração.
A busca de patrocínio foi outro problema, pois entre transporte, seguro, catálogo e montagem, a exposição custou R$ 790 mil e só em setembro a Telemar entregou o dinheiro, fora da Lei Rouanet porque já tinha esgotado sua cota deste ano. Segundo a presidente da Casa França-Brasil, Ana Lúcia Magalhães Pinto, a parceria com a Telemar não se resumirá à exposição. A empresa vai patrocinar também a reforma do telhado e a construção de um cinema no prédio, obra orçada em R$ 1,2 milhão.
Picasso começou a fazer cerâmicas em 1946, logo após o fim da 2.ª Guerra, quando se mudou para Vallouris, na Provence, e conheceu a designer Susanne Ramié. A região era famosa pela qualidade do barro e das cerâmicas que produzia. Muitos artistas haviam comprado fábricas da Idade Média para criar peças artísticas. Susanne era uma dessas artistas e Picasso, que já era consagrado, milionário e estava então casado com a pintora Françoise Gilot, abraçou a técnica.
De início, apenas pintava as peças, geralmente vasos e pratos de Susanne, mas logo começou a criar objetos, inventando bichos e plantas que eram desenhados em vasos e caçarolas. Mais tarde, passou a fazer azulejos e quadros em cerâmica, além de pratos espanhóis em que reproduzia cenas da mitologia provençal ou reinventava a natureza da região. Segundo a crítica de arte Marilyn McCully, especialista nas cerâmicas de Picasso, que assina o catálogo da exposição, a cerâmica o atraiu porque nela se reproduzia várias vezes a mesma imagem, com pequenas modificações. No entanto, nos anos 60, Picasso foi se desinteressando pela técnica até parar de usá-la, na segunda metade da década.
Ao todo foram mais de 4 mil peças ao longo de 27 anos, mas o artista vendeu a maior parte de sua criação. Na ocasião de sua morte, os herdeiros disputaram suas obras com o governo francês, que criou o Museu Picasso com o pagamento do imposto de herança. Mas a família não quis desfazer-se das peças de cerâmica que Picasso guardara em seu poder e readquiriu a maior parte delas.
Além das 80 peças, estarão expostos cartazes do próprio Picasso para suas exposições e fotos de André Villers, seu retratista oficial. Os dois se conheceram nos anos 50 e ficaram amigos até a morte de Picasso, em 73. Nos 20 anos em que conviveram, mais de mil fotos foram tiradas em situações oficiais ou informais.


