"Central do Brasil" reestréia amanhã, dia em que "A Vida é Bela" entre em cartaz
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 04 (AE) - A cinco dias do anúncio das indicações para o Oscar (na terça-feira), há poucas dúvidas de que "Central do Brasil" e "A Vida É Bela" venham a concorrer ao prêmio da Academia de Hollywood. O filme de Walter Salles reestréia amanha (05) para beneficiar-se do clima de euforia que, espera-se, será instaurado na próxima semana. Volta aos cinemas no momento em que estréia o filme do italiano Roberto Benigni. São os mais fortes candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro, por mais que existam campanhas para que concorram na categoria principal.
Tudo indica que Dora e Josué serão os premiados da academia. Resta saber que Dora e que Josué. Pois é uma coincidência verdadeiramente extraordinária. Dora é o nome da personagem de Fernanda Montenegro e Josué, o do garoto interpretado por Vinicius de Oliveira no filme de Salles. Dora também é a personagem de Nicoletta Braschi no filme de Benigni e Josué, o nome de seu filho. As coincidências não páram por aí. Os dois filmes são distribuídos no Brasil pela Lumire. Ana Luiza Muller, que faz a divulgação dos filmes da empresa, torce pelo de Salles. "Já deixou de ser um envolvimento profissional", diz ela. "Há um ano trabalho esse filme e o compromisso é emocional, acima de qualquer outra coisa".
"Central do Brasil" já recebeu 28 prêmios em todo o mundo, desde o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim do ano passado e o Urso de Prata de melhor atriz para Fernanda Montegro. O Oscar poderá ser o 29.º, se o filme não receber outros (como o César) até o dia 21 de março. Salles fez um belo filme sobre o nascimento da ética num país miserável. Difícil resistir à qualidade das imagens e à densidade dos conflitos de Central do Brasil. Estréia - Benigni também tem sido bafejado pelo sucesso desde "A Vida É Bela" estreou nos cinemas italianos, no fim de 1997. Além de bater recordes de público na Itália, o filme ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes do ano passado. Benigni não deixou por menos e beijou os pés do presidente do júri de Cannes, o diretor Martin Scorsese. Seu filme está longe de ser uma obra-prima, mas é irresistível.
Tem tudo o que a academia gosta - emoção, criança e, sobre "Central do Brasil", leva a vantagem de tratar de um tema ao qual Hollywood costuma ser sensível, o holocausto. É o seu ponto forte e também o calcanhar-de-aquiles, pois "A Vida É Bela" tem provocado muita polêmica por tratar do holocausto em chave de comédia. Seus detratores acham que é um assunto sério demais para ser tratado com a leveza que Benigni lhe imprime.
A primeira metade, a melhor, é pura fantasia, mostrando o próprio Benigni como um personagem clownesco, Guido Orefici, que chega à cidadezinha de Arezzo e vive movimentadas aventuras durante as quais tenta conquistar a mulher que chama de princesa - Dora (Nicoleta, mulher do diretor na vida real). Muitas das piadas são batidas e a visão da Itália fascista, com as primeiras perseguições aos judeus, é mais light do que qualquer outra coisa, mas o encanto é imediato.
Numa cena, Guido segue a mulher na estufa e o resultado é uma das elipses mais delicadas da história do cinema. Quando ele sai, passaram-se os anos e o casal já tem um filho. Guido e Josué são enviados para um campo de concentração. Dora segue-os, mas não consegue ficar com o marido e o filho. São separados pelas regras do campo.
Guido inicia então um jogo com o filho. Para poupar à criança o sofrimento (e o trauma) de saber-se num campo de concentração, simula que, na verdade, estão participando de uma gincana. Se conseguirem sobreviver a todas as dificuldades, ganharão como prêmio um tanque de guerra para o menino brincar.
Se o cinema é um olhar sobre o homem no mundo, boa parte do encanto de "A Vida É Bela" pode ser atribuída ao fato de que Benigni assume o olhar do menino, sob cuja ótica o filme é construído. Uma das grandes cenas é aquela em que Josué, confinado no armário, vê a balbúrdia do campo através de um orifício. Benigni não foi o primeiro a fazer rir em cima das especificidades da 2.ª Guerra.
Antes dele, Charles Chaplin em O Grande Ditador e Billy Wilder em "Inferno 17" também trataram do assunto como comédia. Mas, quando faz rir em cima do holocausto, com seu filme mágico, Benigni está sendo fiel à essência da comédia - o horror filtrado pela poesia e pela inteligência.


