São Paulo, 19 (AE) - Walter Salles janta duas vezes hoje. Participa de uma confraternização dos indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro e de outro jantar ligado à organização do Independent Spirit Award. É o prêmio da produção independente, o anti-Oscar. "Central do Brasil" é o único indicado para concorrer nos dois, na categoria de melhor filme estrangeiro. O prêmio será dado amanhã (20) à noite em Los Angeles. "É um prêmio que tem mais a ver com o perfil de Central", diz Salles.
Estão indicados para o Spirit Award, na mesma categoria: "Hana-Bi - Fogos de Artifício", de Takeshi Kitano, "A Enguia", de Shohei Imamura, "Festa de Família", de Thomas Vinterberg, e "O General", de John Boorman. "Torço pelo Hana-Bi, que considero um filme genial", disse Salles pelo telefone.
Desde que chegou a Los Angeles, no começo da semana, Salles não parou mais. O Oscar é uma roda-viva. Há uma sucessão de encontros, de almoços e jantares. Hoje foi realizado um seminário com a participação dos diretores dos filmes estrangeiros. Discutiram os rumos do cinema atual e o que fazer para estimular a distribuição da produção estrangeira nos cinemas americanos.
Salles não vê a hora de descansar do Oscar. Só faz comentários em off sobre a estratégia da Miramax para promover seu principal oponente no prêmio da academia para o melhor filme estrangeiro, o italiano "A Vida É Bela", de Roberto Benigni. "Pessoalmente, considero que a seleção do Spirit Award é melhor", salienta. Lembra que "Central" nasceu como roteiro premiado do Sundance, a principal vitrine da produção independente nos EUA.
Admira-se que seu filme tenha recebido 40 prêmios ao redor do mundo, a começar pelos Ursos de Ouro e Prata (para Fernanda Montenegro) no Festival de Berlim do ano passado. Fica emocionado com o carinho e a participação do público brasileiro. "Central foi feito para o olhar do brasileiro", ressalta. A consagração internacional não foi buscada intencionalmente. "Acho importante fazer filmes sobre e para o Brasil", destaca. Seu compromisso é com a realidade e o público brasileiros.
Mas é gratificante ver como o público de todo o mundo tem recebido "Central" e como um trabalho tão enraizado na realidade do País subitamente alcançou ressonância universal. Salles aproveita para dizer que o Oscar é um jogo de pressão dos grandes estúdios, que promovem campanhas milionárias para divulgar seus candidatos aos prêmios. A campanha que a empresa distribuidora Sony Classics elaborou para "Central" é modesta, comparada à da Miramax para promover "A Vida É Bela". "Acreditamos no boca-a-boca como melhor maneira de promover nosso filme", diz Salles. "Não faz sentido gastar US$ 10 milhões para convencer o público de que o filme é bom - as pessoas devem descobrir isso por elas". Um filme como esse, sobre a ética, deve levar a ética até o fim.

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