A marca do arquiteto brasileiro que comemora centenário de nascimento também tem registro na cidade. É de Oscar Niemeyer o projeto original, assim como as alterações concebidas para dar harmonia a mais pura forma circular da Rodoviária de Londrina. Inaugurada há 20 anos, foi concebida ainda em meados dos anos 1970. De arquitetura arrojada e símbolo de contemporaneidade - mas empreendimento demasiado grandioso para os recursos da época - a obra sofreu paralisações e vários ajustes foram realizados para adequar seu funcionamento às possibilidades de execução.

Estes estudos foram realizados em 1984, pelo então secretário de Urbanismo, Obras e Viação de Londrina, Junker de Assis Grassiotto, que conta em entrevista à FOLHA2, fatos que marcaram a relação de Niemeyer com a cidade.

FOLHA2 - De quem foi a iniciativa para encomendar a Oscar Niemeyer, na época arquiteto já reconhecido internacionalmente pela forma inusitada como utilizava estruturas de concreto armado em formas curvas, o projeto que substituiria outra destacada obra arquitetônica londrinense - a ''antiga rodoviária'', traçada pelo também vanguardista Vilanova Artigas?

JUNKER- Foi do arquiteto mineiro Léo de Judá Barbosa, que chegou a Londrina no final dos anos 1960 para integrar a equipe do então prefeito Dalton Fonseca Paranaguá (1969/1973), como secretário de Planejamento. Ele trazia na sua formação uma profunda paixão pela obra de Le Corbusier e uma enorme admiração por Oscar Niemeyer. Tanto que, algumas das mais marcantes obras de Léo em Londrina, como a sede da Associação Odontológica e o Moringão, mostram as fortíssimas influências (e refletem as expressões plásticas) do grande mestre suíço e do nosso agora arquiteto centenário, Niemeyer. Mas foi durante a primeira administração de Antonio Belinati (1977/1982), quando Léo de Judá voltou à Secretaria do Planejamento, que surgiu a idéia de atender a uma das maiores necessidades da cidade naquela época: construir uma nova rodoviária, pois a antiga, era acanhada em número de boxes, totalmente superada pela demanda de passageiros. Como amigo e admirador de Niemeyer, o secretário viu nessa vontade do então prefeito a possibilidade de realizar um sonho: construir em Londrina uma obra que colocaria nossa cidade no cenário nacional. Autorizado, conversou com Niemeyer no Rio e assim contratou o projeto arquitetônico. O resultado foi magnífico: uma cúpula de concreto protendido em forma de rosácea.


Era um projeto arrojado e grandioso para a realidade da época?
Sim, era uma rodoviária grandiosa demais para nossas possibilidades, ainda que realmente maravilhosa. Isto porque os recursos destinados eram muito pequenos para o porte do empreendimento. É muito importante dizer aqui que, com a instalação da obra na região onde se encontrava a zona do meretrício da cidade, se fez uma grande requalificação urbana, essencial para a Londrina de então. Diante desse contexto, houve a interrupção dos trabalhos e Léo voltou ao Rio para solicitar uma alteração. Niemeyer não se negou e atendeu ao pedido propondo uma nova solução: transformou a cúpula num conjunto de cascas semi-tronco-cônicas, radiais, apoiadas sobre um círculo de pilares internos e outro externos, agora em concreto armado. Retomou-se a construção, mas por pouco tempo. Somente um pequeno pedaço das cascas chegou a ser concretado. Uma nova paralisação aconteceu, agora em definitivo, para aquela gestão que se encerrou no começo de 1983. Faltou dinheiro. Faltou muito dinheiro; algo como 60% do valor total.

Mas a obra foi retomada, e durante sua gestão como secretário de Obras do prefeito Wilson Moreira...
Mesmo tendo encontrado a prefeitura devendo algo como quatro vezes e meio o seu orçamento, Wilson tinha perfeita consciência de que a rodoviária não podia continuar abandonada, precisava ser terminada. Afinal, obra parada é a obra mais cara que existe, pois absorveu recursos do contribuinte e não rende nada. Em meados de 1984, então, ele me pediu para estudar uma maneira de concluí-la. Sentei durante bom tempo numa prancheta e pessoalmente comecei a pensar nas possibilidades de viabilizar seu funcionamento - um estudo que envolvia questões técnicas e financeiras. Não definia a arquitetura, ainda que apresentasse diversas condicionantes. Quando o estudo terminou apresentei-o ao prefeito que o considerou perfeitamente viável, em condições de seguirmos adiante. Nessa reunião me perguntou qual o próximo passo a ser dado. Eu disse que como o projeto era do Niemeyer deveríamos tentar contratá-lo para fazer as alterações que achávamos necessárias. Com a anuência de Wilson Moreira, fui ao Rio.

Como foi o senhor foi recebido por Niemeyer? Afinal, iria pedir a um dos mais graduados arquitetos contemporâneos que fizesse readequações em um projeto, uma criação já recebida pela cidade como obra de extrema beleza arquitetônica...
Minha expectativa era encontrar dificuldades, afinal, eu ia conversar com um mito que poderia simplesmente ignorar meu apelo. Não foi o que aconteceu. Saí de lá com a solução. E digo mais: depois de receber as alterações, conforme o combinado, voltei ao seu escritório uma segunda vez, pois faltou o desenho da caixa de água. Niemeyer resolveu, na minha frente, o problema em um minuto. Bastou um traço para apresentar a solução hoje executada que é de uma beleza ímpar, calculada pelo meu amigo Zocco.

O senhor participou das alterações?
Claro que participei. E como no nosso contrato com Niemeyer não constava o detalhamento, tivemos que contratar esse serviço e o fizemos convidando o arquiteto Júlio Ribeiro, para nos ajudar. Ele projetou a comunicação visual, os jardins e as lojas - uma solução encontrada por Wilson Moreira para viabilizar recursos para a execução do empreendimento.

O senhor mesmo comentou que muitos choram, e lamentam ainda hoje, dizendo que o projeto original não foi executado. É verdade?

Sim, é verdade. O projeto, principalmente o original era genial. Mas não poderia ter sido proposto nunca. Mas não podemos lamentar. A rodoviária que temos nos atende há 20 anos (tempo exigido no dimensionamento do DNER) e ainda nos atenderá por mais 20, principalmente porque Londrina não cresceu de acordo com as projeções esperadas naquela época. Foi concluída em mais ou menos dois anos após a retomada, tendo sido inaugurada em meados de 1987. Não sei se conseguimos realizar o sonho do meu amigo Léo, talvez não, nunca tive coragem de conversar com ele sobre isso, nem ele tratou desse assunto comigo, mas fizemos o possível e tenho muito orgulho do que fizemos. A obra merece críticas? Sem dúvida, mas qual obra não merece?

mockup