CENTENÁRIO DA IMIGRAÇÃO - A alma japonesa na cultura brasileira
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2008
Jorge J. Okubaro<br> Agência Estado 
Um ''registro da mobilidade social dos imigrantes japoneses e seus descendentes, e de sua contribuição para a formação cultural da sociedade brasileira''. É assim que o professor emérito da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e presidente da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, resume o significado do livro O Nikkei no Brasil. Trata-se de uma obra coletiva coordenada por Kiyoshi Harada lançada esta semana na Assembléia Legislativa, no Ibirapuera.
O livro abre uma lista de lançamentos de títulos que tratam da imigração japonesa e que certamente virão a público ao longo de 2008. Afinal, este é o ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, iniciada em 18 de junho de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos. A expressão nikkei empregada no título ao livro se refere aos japoneses e seus descendentes que moram fora do Japão.
É uma obra extensa (630 páginas), que mostra como evoluiu a imigração japonesa no Brasil, como ocorreu a integração dos imigrantes e dos nikkeis em geral à sociedade brasileira, as tensões surgidas ao longo dessa integração e a influência dos brasileiros de origem japonesa em áreas tão diversas como agricultura, indústria, comércio, assistência social e saúde.
O livro dedica, ainda, dois capítulos densos a um dos fenômenos mais marcantes da história da imigração, que é o dos dekasseguis - os nikkeis que, em grande número, resolveram fazer o caminho inverso de seus pais e avós, deixando o Brasil para ganhar a vida no Japão. O primeiro desses capítulos é de autoria de um dos mais profundos conhecedores do problema, o advogado e professor de Direito Masato Ninomiya, que preside o Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), instituição criada para dar assistência aos dekasseguis.
O segundo, de autoria do psiquiatra Décio Issamu Nakagawa e da psicóloga Kyoko Yanagida Nakagawa, contém pelo menos uma constatação instigante: a exclusão social entre os nikkeis. A impressão dominante, diz Décio Nakagawa, era a de que a coletividade nipo-brasileira se constituía de universitários, comerciantes, industriais ou agricultores bem-sucedidos. Tendo estudado a situação dos dekasseguis, o psiquiatra concluiu o seguinte: ''O movimento dos trabalhadores brasileiros no Japão revelou uma faceta invisível ou escondida. Cidadãos brasileiros, que poderiam ter passado toda sua existência sem a consciência de sua exclusão social, com o movimento migratório, tomaram conhecimento dessa dura realidade até então mascarada.''
Eis aí um tema que mereceria um exame mais profundo dos especialistas. Há outros que também foram tratados de passagem no livro, alguns em notas de rodapé, e que igualmente estão a requerer uma reflexão mais intensa.


