CENOURAS DE PÁSCOA
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Não existem apenas crianças que acham que os coelhinhos trazem ovos de Páscoa, também existem coelhos que acreditam que os menininhos trazem cenouras de Páscoa. Pelo menos numa história de Ana Maria Machado
Se coelho não bota ovo de onde ele tira os ovos de Páscoa? Perguntas como essa já foram feitas por dezenas de crianças sem que nenhum adulto conseguisse, através da lógica, encontrar uma resposta convincente.
A resposta pode ser mais simples do que parece, trata-se de um segredo secular. Assim como é segredo como os dragões cospem fogo sem queimarem a boca, também é segredo de onde os coelhos tiram ovos de Páscoa.
O que poucos sabem é que, durante a Páscoa, os filhotes de coelhos fazem perguntas semelhantes. Algo como: Menino de Páscoa existe mesmo? Se menino não é horta de onde ele tira as cenouras de Páscoa? Também trata-se de um segredo dos meninos, assim como é segredo a maneira como Papai Noel, gordo e idoso, consegue passar por milhares de chaminés de cinco continentes numa única noite.
Segredos mágicos como esses são mantidos sob sigilo em Uma História de Páscoa, livro infantil de Ana Maria Machado que acaba de ser relançado pela Editora Salamandra, com ilustrações de Gonzalo Cárcamo. Conta a história do menino Joãozinho que espera avidamente o domingo de Páscoa ao mesmo tempo que se indaga se coelhinho de Páscoa existe. Paralelamente, conta a história do coelho Dudu que espera com apreensão o mesmo domingo de Páscoa ao mesmo tempo que se questiona se realmente existe menino de Páscoa. Um espera ovos de chocolate embrulhados em papéis cintilantes, outro, cenouras suculentas revestidas com papéis coloridos.
No domingo esperado, Joãozinho e Dudu acordam cedinho e correm para o quintal para procurar os presentes de Páscoa. O desapontamento brota de seus olhos ao não encontrarem nada, nem ovos, nem cenouras, e num instante mágico, os dois se encontram: Bom dia, coelhinho de Páscoa disse Joãozinho você está atrasado. Até pensei que você não vinha. Mas o coelhinho respondeu: Bom dia, menino de Páscoa. Você estava atrasado. Até pensei que você não vinha. Numa situação constrangedora, esclarecem o assunto e voltam tristes para suas casas.
Menino e coelho contam, a seus respectivos pais, o acontecido. Para Joãozinho, mais que na sua própria desilusão, pensava na tristeza do coelhinho, sentia pena do pobre bichinho. Para Dudu, mais que em sua própria tristeza, pensava na desilusão do menininho, sentia pena do pobre bichinho. Cada um a seu modo, decide arrumar um jeito de acabar com o desencanto do outro. Para isso pedem ajuda aos pais.
A história termina com Joãozinho encontrando vários ovos de Páscoa escondidos no quintal. No mesmo local, Dudu também encontra um monte de cenouras de Páscoa. Após muita alegria e comilança, ficaram pensando como será que meu pai conseguiu isso?
O pai do menino esclarece o mistério com as seguintes palavras: Muito fácil, meu filho. Peguei umas cenouras da geladeira e embrulhei em papel colorido. O pai do coelho, por outro lado, com um sorriso nos bigodes, deixa o mistério do ar: Ah, pois é... Coelho não é galinha, não põe ovo. E ovo de galinha tem gema e clara, não tem bala. Nem é de chocolate. Um segredo que só é desvendado quando as pessoas, e os coelhos, crescem, viram gente grande. Aí tudo perde a graça.
Uma História de Páscoa De Ana Maria Machado, ilustrações de Gonzalo Cárcamo, Editora Salamandra, 24 páginas, R$ 11,50.





