Cenógrafo londrinense distribui talento pelo Brasil
Diretor de arte, cenógrafo e figurinista, Gelson Amaral é um dos profissionais mais requisitados no Paraná
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de março de 2025
Diretor de arte, cenógrafo e figurinista, Gelson Amaral é um dos profissionais mais requisitados no Paraná
Suzi Bonfim/ Especial para a FOLHA 

Aos cinco anos, o garoto Gelson Amaral já desenhava com cacos de telha na calçada da casa onde morava na rua Bolívia, na tradicional Vila Brasil, em Londrina.
Na época, por orientação da mãe Maria Nunes do Amaral, a dona Deuzinha, o espaço era delimitado para ele não riscar a calçada do vizinho. “Lembro que minha mãe falava que era para desenhar só na nossa calçada, para não sujar a calçada dos vizinhos. Então, eu tinha uma linha estabelecendo o limite onde podia desenhar. O desenho é uma forma de expressão que carrego desde criança. Assim, obviamente, fui estudar arquitetura”, lembra Gelson, arquiteto formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) há 36 anos.
Atualmente, como cenógrafo, figurinista e diretor de arte, Gelson Amaral, é um dos profissionais mais requisitados nas artes cênicas e na produção audiovisual do Paraná. Ao longo de quase 30 anos, são mais de 60 trabalhos envolvendo espetáculos de teatro, música e dança.

Ele também atuou em grandes escritórios de arquitetura em Londrina e Maringá e, depois, se embrenhou pelo mundo das artes cênicas. Em apenas quatro anos atuando como cenógrafo, conquistou o Prêmio Shell 2002, pelo cenário da peça "Da Arte de Subir em Telhados" em parceria com o diretor da Armazém Companhia de Teatro, Paulo Moraes, no Rio de Janeiro.
O prêmio também foi o passaporte para a República Tcheca representando o Brasil na Quadrienal de Praga - Exposição Internacional de Cenografia e Arquitetura - com mais de 40 países, em junho de 2003.
Premiado nacionalmente como cenógrafo nos palcos, seus voos mais recentes são ao lado do cineasta Rodrigo Grota, que já tem planos de um longa-metragem para 2025.
Nos últimos dois anos - 2023 e 2024 - Gelson fez a direção de arte de séries dirigidas por Grota e exibidas pela TV Brasil e pelo Canal Curta. Em "Dramaturgias", produção da Filmes com Saquê para o circuito de tevês públicas sobre a história da escrita para o teatro no Brasil, fez a direção de arte de sete dos treze episódios. Já na série "Libertárias", uma produção da Kinopus para o Canal Curta sobre mulheres inspiradoras na História do Brasil, Gelson fez a direção de arte de quatro dos oito episódios produzidos.

DESAFIOS NO SET
Ao encarar o desafio no audiovisual pela primeira vez, Gelson seguiu a lógica da experiência conquistada nos palcos como cenógrafo e figurinista e colocou em prática a dinâmica do trabalho coletivo. “Nesse universo do cinema, se trabalha de uma forma diferente do palco. É outra linguagem, outra forma de apresentar a paisagem, a atmosfera. E aí, de novo, a importância do trabalho coletivo como é no teatro, na dança, no cinema, e nos musicais. Eu não sou um criador, o trabalho não é o resultado só do que você pensa”, considera.

De acordo com o diretor de arte, saber lidar com o ego de cada um neste processo faz toda a diferença. “O artista tem muito essa coisa do trabalho solitário. É a sua obra e é ele o grande artista. Eu sempre digo que trabalhar com cenografia é um exercício de dissolução do ego. Primeiro que a cenografia é a arte do efêmero, só tem vida quando a luz do palco se acende, quando a cortina se abre e quando o ator está no palco e dá vida ao espetáculo. Fechou a cortina, apagou a luz, o cenário é só um monte de coisas empilhadas lá atrás, por mais lindo que seja”, constata.
Além disso, o trabalho no audiovisual ainda exige mais presença e entrega durante a produção. “No cinema, a conversa com o diretor do filme é mais constante. Você tem que estar junto no set de filmagem, você é como uma sombra mesmo, que tem um envolvimento permanente até o último dia de gravação. Ou seja, a responsabilidade do diretor de arte é muito mais ampla”, reconhece.
'CARMEN' DE VOLTA AOS PALCOS
O ano de 2024 foi especialmente produtivo para Amaral. Em dezembro, a apresentação da remontagem de "Carmen", espetáculo de dança e música, com direção geral e coreografia de Luiz Fernando Bongiovanni, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), trouxe de volta aos palcos o cenário idealizado, em 2016, na primeira montagem da ópera pelo Balé do Teatro Guaíra (BTG), em Curitiba.

“A remontagem de Carmen quase 10 anos depois, com a Cia de Dança do Palácio das Artes, de novo com o Bongiovanni, que é um mestre, um grande coreógrafo e filósofo, foi especial. Por mais que seja o mesmo cenário, a gente vê com outro olhar porque é outra companhia, tem um refinamento, e o resultado é lindo de se ver”, diz o cenógrafo.
Morando em Londrina, o vínculo com o Centro Cultural Teatro Guaíra não se desfez. “O pessoal do Guaíra diz: 'Gelson, você é da casa.' Então, quando eu tô no Guaíra, nos bastidores, no estúdio de figurino, na sala de produção e principalmente no palco, sei que estou em casa.”
Versátil, no ano passado Gelson também foi requisitado para fazer o desenho, composição e produção dos cenários do espetáculo musical "Sertão Lisérgico" de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola, em setembro, no Teatro Ouro Verde. Em agosto, no Espaço Cine Villa Rica também fez a cenografia do show "Dramma Queeen", com direção musical de Daniel Belquer.
Criou ainda os cenários e figurinos da "Lírica Preta", com direção artística de Carin Louro, espetáculo que reuniu pessoas pretas, cantoras de ópera da cidade em uma apresentação também no Villa Rica. Sem contar a direção de arte do videoclipe " Dandara: a Força", da MC Luly.
CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL
Há uma carência de profissionais na área de cenografia e cenotécnica no país, de um modo geral. Para contribuir com a formação de pessoal, Gelson realizou em 2023 e 24, um laboratório de Cenografia e Cenotécnica com recursos da Fábrica Popular de Cultura através do PROMIC - Programa Municipal de Incentivo à Cultura - da Secretaria de Cultura de Londrina, em parceria com Carin Louro, Marcos Martins e Luiz Eduardo Pires. Cerca de 40 pessoas participaram das oficinas.
Gelson, que é um figurinista autodidata, entende que a formação acadêmica é essencial. “A cenografia ainda não é vista como uma arte de primeira. Por isso, o desejo de montar a oficina surgiu para instigar e trazer à luz o conhecimento desse universo das artes cênicas para não só trazer o conceito das possibilidades de criação de cenários mas também a confecção e execução”, diz o cenógrafo que cobra mais investimentos da prefeitura na área.
MAIS CINEMA EM 2025
O diretor de cinema, Rodrigo Grota, está se preparando para produzir um novo longa-metragem este ano e Gelson Amaral vai estar ao lado dele, mais uma vez. A parceira é o resultado do desempenho nas séries "Dramaturgias" e "Libertárias”.
“Em ambos os casos, além de ser extremamente dedicado e atencioso, Gelson compreendeu a proposta não só logisticamente, mas esteticamente. Ele amplia a ideia, solidificando portanto um diálogo essencial entre Direção, Roteiro, Produção, Fotografia e Arte, o que torna o resultado dessa parceria sempre algo novo e muito instigante”, afirma Grota.
O diretor do Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, o coreógrafo Luiz Fernando Bongiovanni, também elogia o desempenho de Gelson Amaral. “Tive a chance de trabalhar com ele no Balé Guaíra e a experiência foi tão boa que trabalhei de novo com ele quando fui chamado para fazer um outro projeto em Curitiba, fora do Guaíra, o "Memória de Brinquedo", para o qual ele também fez a cenografia. Acho o Gelson um cara muito competente, muito capaz, muito dedicado e organizado”, destaca.
Para o diretor, uma das principais características do cenógrafo londrinense é a capacidade de se adequar ao orçamento do projeto. “Às vezes, você tem um orçamento que é X, e tem que conseguir sonhar o mais criativamente dentro daquele valor de produção. O Gelson faz isso muito bem, porque nas ocasiões em que trabalhamos juntos, ele soube tirar proveito das condições que a gente tinha. Além de um grande artista, ele tem um conhecimento técnico que é muito importante. Quando você pensa em forma, textura, cor, isso está ligado também a vários tipos de material e ele domina toda a cadeia produtiva, desde a concepção da cenografia até a execução e, muitas vezes, segue ali, no acompanhamento da própria operação. O Gelson é um baita de um parceiro criativo”, conclui o diretor do Balé Teatro Guaíra.


