Cenas inusitadas
CENAS
INUSITADAS
Pendurados nos prédios, atores causam sensação no centro de Londrina: é o espetáculo de Angie Hiesl
Jackeline Seglin
Mario CesarA chilena Inês vai depenando uma galinha e um garoto grita: Pirou, tia?
O que é isso aí? Ela vai pular de lá? Tem cada louco nesse mundo!!! Aliás, que doideira é essa? Para saber, é melhor dar uma andada pelo centro de Londrina hoje ou amanhã, do meio-dia à uma da tarde. Toda essa agitação está sendo causada pela performance X-Vezes Gente Cadeira, que a companhia alemã Angie Hiesl apresenta no Festival Internacional de Londrina (Filo).
As surpresas estão nas esquinas, nas praças, no alto... Cadeiras presas na parede? Sim, cadeiras e atores. Em 10 pontos da cidade (na região do Calçadão, Alameda Miguel Blasi e rua Pernambuco), as pessoas têm o seu corre-corre diário interrompido por cenas inusitadas. Pessoas com mais de 60 anos de idade penduradas e expostas nas fachadas.
Mario CesarMaria Tereza, 72 anos, escondeu da família sua participação na performanceAs reações do público são as mais diversas possíveis. Pensei que ela queria se jogar, diz assustada uma moça. Como foi que ela subiu lá, hein? - pergunta uma senhora - Acho que eu também teria coragem de fazer isso, mas não dá tempo, meu ônibus já vai passar. O garoto comenta: Para a idade, elas têm muita coragem!. Teve até gente que perguntou se alguém estava pagando promessa. Isso sem contar a criançada que tenta provocar os atores e os mal-humorados que do carro berram: vocês não têm o que fazer, bando de vagabundos!.
A diretora Angie Hiesl ri e adora todas essas reações. Sempre há diferentes respostas do público. Além dos sustos e provocações, tem as respostas negativas, conta.
A performance tem 10 atores: cinco estrangeiros (da Alemanha e Holanda) e cinco brasileiros (do Grupo de Theatro da Terceira Idade do Sesc Londrina). Durante uma hora, cada um conta ao seu modo um pouquinho do seu cotidiano.
Apaixonado por Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa, o holandês que escreve versos conquistou fãs inesperados. Os alunos do colégio Hugo Simas se encantaram com a performance de Win, que escreve poemas e os joga para a platéia. Outras vezes, engole as folhas de papel. O tiozinho, joga logo que eu tô com pressa!, grita um. Outro garoto, intrigado, acredita que a performance é uma prévia do que seria apresentado mais tarde num teatro. Mais um poema, mais uma folha no ar. Versos como este: Ouço música/ leio versos/ entre incenso e cantos permaneço dentro de mim/ prisioneiro. Sete ou oito garotos atravessam a rua correndo e disputam o pedaço de papel, tentando decifrar aquelas palavras diferentes...
Num outro canto da cidade, Iolanda lê um livro. E, ao mesmo tempo em que enrola o cabelo, escuta o inseparável radinho de pilha. Maria Tereza, de 72 anos, fazia seu crochê calmamente. Depois de esconder da família sua participação da performance, finalmente ela liberou a surpresa, ontem, na estréia. Lá embaixo, uma voz soa - perplexa: Vó, o que você tá fazendo aí?.
Sandra foi atriz da Rádio Londrina na década de 40. Em sua performance, ela lentamente degusta uma maçã e canta músicas de Libertad Lamarque, cantora de tango, incluindo sucessos dos anos 30 como Fumando Espero. É de encantar - basta uns minutos sob a cadeira desta atriz.
Longe das outras, a alemã Agnes se concentra em tirar tudo de uma bolsa e passar para outra. Detalhe: toda vez que faz a troca, ela confere e anota cada objeto.
Jandira realiza na sua performance - uma das mais belas - um antigo sonho. Como não foi fotografada vestida de noiva em seu casamento, agora ela própria costura um vestido e se veste. Um momento tocante.
A chilena Ignês, que mora na Alemanha, aos poucos vai depenando uma galinha. Viva? - Não, pronta para o caldeirão. De uma hora para outra, ela solta uma gargalhada. O garoto passa, olha para cima e dispara: Pirou aí, tia?.
Ed, o alemão, diverte o público com as maracas e sua coqueteleira. Fã de Carmen Miranda, ele dança, cantarola, ri. O eco do ritmo mudo chega a contagiar as pessoas.
Madalena lembra seu tempo de cabeleireira. No colo, uma cabeça de manequim com uma peruca, a qual ela penteia, acaricia, transforma. Na outra esquina, Ariane dobra tecidos (as roupas da casa) e vai empilhando na cabeça - como a rainha do lar. Cenas da vida. Cotidianas... mágicas.





