Cenas de uma separação
Kraw PenasIrene Ravache: ‘‘Quando você tem um filho com um homem, você é sócia desse homem pelo resto da vida’’
Irene Ravache
fala de
‘‘Inseparáveis’’,
espetáculo
em cartaz
no Guairinha
Elisa Marilia Carneiro

Sempre que está com uma peça em Curitiba, Irene diz que fica nervosa. ‘‘Eu adoro esta cidade e acho o povo bem crítico. É um pessoal que vem conferir’’, explica. Ela está estreando a peça ‘‘Inseparáveis’’, ao lado de Jussara Freire e de Eduardo Conde, no Guairinha.
Com uma alegria contagiante, Irene promete um espetáculo daqueles que todos saem com alguma identificação com um dos personagens. ‘‘Os jovens dizem que presenciaram seus pais numa situação parecida e os adultos sabem bem do que estamos falando. Em São Paulo veio um senhor me dizer assim: olha eu sou tudo isso, igualzinho’’, lembra. Ela reconhece que a peça provoca reflexões e faz com que as pessoas busquem o que acreditam. Irene conversou com a Folha sobre a peça e seus planos de trabalho.
Então, como é a Regina, de ‘‘Inseparáveis’’?
Irene - Ela está decidida a se separar nas vésperas das bodas de prata. A Regina reconhece que casou, mas nunca se apaixonou. Ela ainda tem uma visão romântica da vida, pensa que quando se separar vai ser livre para namorar à vontade. Mas a amiga diz: olha, não é bem assim.
A amiga Ana (Jussara Freire) alerta: pense duas vezes antes de se separar. Por quê?
Irene - A questão da solidão é muito forte e as pessoas se separam sem refletir nisso. Mas quando Ana percebe que a amiga está resolvida, dá a maior força. Mesmo porque a própria Ana já viveu situações parecidas.
O que tem o texto de mais interessante?
Irene - A Maria Adelaide Amaral (autora) consegue não colocar heroínas, mas pessoas palpáveis, muito parecidas comigo, com você, porque são pessoas que têm medo, verbalizam o seu medo. Não têm pudor em dizer: eu estou sozinha e dói. Isso é o que tem de melhor nesse espetáculo.
O público dessa peça é definido?
Irene - No início a gente pensava que seria para uma platéia que foi acostumada com ‘‘vale qualquer coisa desde que seja para manter seu casamento’’. Mas me surpreendo quando vejo jovens na platéia e, quando temos oportunidade de conversar, eu digo: espero que, com vocês, pelo menos a forma de resolver essas questões, seja diferente. Ao que eles respondem: alguma coisa é diferente mas em outras coisas somos os mesmos, iguaizinhos aos nossos pais, repetimos o modelo.
Como é tratada a questão do sofrimento, na peça?
Irene - A minha personagem diz assim: ‘‘já é difícil, tem que ser doloroso?’’ E eu, Irene, acredito e espero que quando as pessoas se separarem pelo menos evitem a dor. Sem aquele drama mexicano onde a pessoa vive 15, 20 anos com um homem e quando ele vai embora escreve o nome dele na boca do sapo, queima todas as roupas dele. É bom para o tango mas muito desgastante para o dia-a-dia.
Isso prova que nada é inseparável?
Irene - Não, que algumas coisas são para sempre. Eu acredito, por exemplo, que quando você tem um filho com um homem, você é sócia desse homem pelo resto da vida, ainda que ele tenha morrido. Então, algumas coisas são inseparáveis.
E como é o homem dessa peça?
Irene - É um novo homem que está pintando, e um homem muito pouco explorado na dramaturgia brasileira. As diferenças estão quando ele fala dele, dos seus medos. Ele se expõe bastante. Ele chora, desaba como um bebê. A gente não vê muito isso. Ele tenta dar um beijo apaixonado nela. Ele diz: ‘‘olha, sua burra, eu te amo’’.
Mas nisso, o casamento já acabou...
Irene - Não, para ele está ótimo. Ele acredita realmente nisso. Ele pergunta: você não é feliz? Ela diz que não. Ele argumenta: só na sua cabeça, porque você é feliz. Você tem uma casa, tem filhos, dinheiro... Nesse ponto ele repete o papel dos homens, mas vai atrás dela, e isso os homens não fazem. Daí, o novo homem.
Agora, fale um pouco sobre os planos para o futuro.
Irene - Tenho recebido vários convites, realmente. Gostaria de fazer televisão e ainda não me decidi entre dirigir ou atuar na novela ‘‘Serras Azuis’’ para a Bandeirantes, ou atuar em ‘‘Você Decide’’ e no seriado ‘‘Mulher’’, da Rede Globo. Mas ainda não me sinto madura para assumir a minha primeira direção. Tenho também um convite da Rede Mulher para um programa ligado a profissões, seria na área de jornalismo, de entrevistas. E mais, tenho um convite para um filme da cineasta Ana Penido. Algum desses vai sair, mas ainda não me decidi, realmente.
O espetáculo ‘‘Inseparáveis’’ está em cartaz no Guairinha, em Curitiba até o dia 2 de agosto. Hoje e amanhã, às 21 horas, e domingo, às 19 horas. Os ingressos custam R$ 20,00 e R$ 25,00.

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