Cenas de um descasamento
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Os americanos têm uma definição precisa para este tipo de filme que estréia hoje em exatas 100 salas brasileiras (confira a programação de cinema nesta página). O nome é dramedy, com a tradução literal - dramédia - felizmente ainda não circulando por aqui. The Story of Us é justamente isso, uma comédia dramático-romântica dirigida por um especialista, interpretada por dois emblemas hollywoodianos carregados de carisma e produzida por um nome que por si só é uma pista segura - os cinéfilos devem conhecer a ascendência ilustre - para tornar previsível o desfecho da trama: Frank Capra III, neto homônimo do mais feliz realizador de felizes comédias new deal, que no final da primeira metade do século irrigaram de lágrimas e bons sentimentos o sonho americano.
E como a felicidade não se compra e do mundo nada se leva, a não ser grandes esperanças embaladas por efêmeras, abstratas e doces impressões de felicidade, o casal Ben e Katie Jordan, do sul da Califórnia, está no momento em fase de reciclagem terapêutica do tipo confessional. (O sobrenome Jordan pode ter ressonâncias, obviamente não assumidas, de outros Jordans de Happiness - veja matéria nesta página.) Os dois aparentemente têm tudo: bons trabalhos, dois ótimos garotos e uma duradoura química que os tem mantido juntos . Mas o manual básico de sobrevivência da crise conjugal, depois de 15 anos de relação afetiva, prevê uma avaliação realista de altos e baixos. É o decantado dar um tempo, buscar um canto neutro e solitário, apesar do indefectível casal amigo e confidente. E é o que fazem Ben e Katie, já prevendo a separação enquanto os meninos, Josh e Erin, de 12 e 10 anos, estão numa colônia de férias.
Katie é a metade mais sensível, uma editora de palavras cruzadas que tem que estar no controle - afinal, alguém precisa pagar as contas no vencimento. Ben é o sonhador, um roteirista de comédias televisivas que se tornou novelista e alguém que no fundo ainda torce por um happy end, seu e de todas as pessoas. Quando os dois se conheceram, cada um se apaixonou pelas qualidades opostas, mas agora os conflitos criaram barreiras cada vez maiores para uma reaproximação. Cada um por sua conta e risco, Ben começa a escrever uma biografia há muito sonhada, enquanto Katie toma aulas de cozinha com um vizinho dedicado.
Feitas as contas, o diretor Rob Reiner (também ator no filme como Stan, o melhor amigo de Ben) já acumulou cacife e desenvoltura suficientes para não decepcionar. São dele o olhar atento e delicado sobre o universo infantil no mini-cult Conta Comigo, o passeio pela mente enferma do fanatismo em Louca Obsessão, a discussão franca e acalorada sobre verdade e autoritarismo em Questão de Honra e os jogos e armadilhas sexuais e afetivos das disponibilidades indisponíveis em Harry e Sally - Feitos um Para o Outro. Se Reiner manteve a bossa para subverter os clichês da comédia dramática de fórmula gasta, A História de Nós Dois pode ser um entretenimento acima da média. Caso contrário, nem Eric Clapton na trilha musical, nem a magnética beleza de Michelle Pfeiffer e nem a curiosidade em torno de um Bruce Willis aqui apenas duro de divorciar têm como dar jeito.
E a propósito de Willis, que pode ser visto no momento em três papeis de seres humanamente vulneráveis - Sexto Sentido, A História de Nós Dois e Almoço dos Campeões, este somente nas locadoras - , sua atuação como o escritor em crise conjugal foi saudada com entusiasmo pelo diretor Reiner, que considerou o personagem particularmente enriquecido pela experiência real vivida durante a separação da atriz Demi Moore.





