Jackeline Seglin
De Curitiba
Há cem anos, o dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) escrevia um de seus textos mais conceituados – e amargos – para abordar a vida a dois, sugerindo a impossibilidade do relacionamento amoroso pleno. Talvez uma maneira de exorcizar seus próprios fantasmas – ele teve três casamentos fracassados em relações conflituosas.
O texto ‘‘A Dança da Morte’’ foi adaptado pelo diretor Rodolfo García Vázquez para a montagem curitibana que estreou ontem e será reapresentada hoje, na mostra paralela (Fringe) do Festival de Teatro de Curitiba. A história relata uma relação neurótica entre duas pessoas que não se amam e que se agridem o tempo todo por não saberem exteriorizar seus sentimentos.
Vázquez traduziu e adaptou a peça original – de quatro horas de duração – para uma montagem mais ágil, reduzida a duas horas. O casal Edgard e Alice vive isolado em uma ilha e, aos 25 anos de casamento, confessa um ódio antigo. Ambos se atribuem a missão de um mútuo tormento. ‘‘Eles nunca se suportaram e vivem uma relação desgastante, que acaba por afastá-los dos demais moradores da ilha’’, conta.
O relacionamento toma uma nova proporção com a chegada de Kurt, um amigo da família. ‘‘É com ele que o casal começa a dançar, em uma relação de vampirismo’’, diz o diretor, que explica: o título ‘‘Dança da Morte’’ vem da lenda das danças macabras da Idade Média, que aconteciam quando pessoas morriam de peste e vinham dançar com os vivos para levá-los para o mundo dos mortos. ‘‘O casal ‘pertence’ ao mundo dos mortos, pois vive essa relação destrutiva.’’
No segundo ato da peça é estabelecida uma nova relação, desta vez entre a filha do casal e o filho de Kurt. ‘‘É um espelho do relacionamento dos mais velhos, mas com a esperança de nova possibilidade fora da ilha.’’
Apesar do clima tenso e de opressão, Strindberg acrescentou ao texto uma dose de um humor cruel e cínico, que tem origem nos diálogos entre os protagonistas. O que vai pesar mais para o espectador? ‘‘Depende do público. Mas a sensação final é de amargo’’, analisa o diretor.
Ficha Técnica
Espetáculo - ‘‘A Dança da Morte’’, de August Strindberg
Tradução, adaptação, direção e iluminação: Rodolfo García Vázquez
Elenco: Mário Schoemberger, Mazé Portugaal, Hélio Barbosa, Brígida Menegatti e Germano PereiraA metáfora da ‘‘dança da morte’’ serve de argumento para mostrar
a deterioração de um casamento em espetáculo em cartaz
DivulgaçãoCena de ‘‘A Dança da Morte’’: a história de uma relação neurótica entre duas pessoas que não se amam

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