Cenas de horror no Guairinha
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de novembro de 1997
Edmundo Inagaki 
Curitiba
Divulgação
Cenas de PeeP: banquete macabro deve provocar muita inquietação no público, espetáculo é desaconselhável para menores de 16 anos
Cenas de sangue no palco do Guairinha. PeeP (através dos olhos de um serial killer), do autor e diretor Paulo Biscaia Filho, que o grupo Vigor Mortis vai apresentar de hoje até o próximo dia 30, tem tudo para ser um dos pratos mais indigestos da temporada. Um jantar que será servido frio ao público curitibano, tradicionalmente avesso às vanguardas, na opinião de Biscaia, que evoca o espírito maldito de Antonin Artaud para dar suporte à loucura criativa dos assassinos em série e provocar a inquietação. Essa peça é um manifesto contra a caretice, da vida e da arte. Chega de ser careta, principalmente aqui em Curitiba. Porque o artista tem que construir sua própria moral, e é isso que nós estamos fazendo com PeeP.
O espetáculo, primeira montagem da companhia Vigor Mortis, é recheado de passagens chocantes e violentas. Recorrendo a imagens que parecem ter saído de um pesadelo, PeeP oferece um farto rodízio de homicídios com requintes de crueldade. A idéia da peça surgiu quando eu, passeando pela Internet, me deparei com uma carta de um assassino chamado Albert Fish. Uma carta que ele mandou para a mãe de uma vítima dele, contando em detalhes como ele tinha levado a menina de nove anos para casa, estrangulado, mutilado e cometido atos de canibalismo com a carne da menina durante nove dias, conta o autor e diretor, que há dois anos atrás defendeu na Inglaterra uma tese de mestrado sobre o Théâtre du Grand Guignol, de Paris, que estruturou e solidificou o horror como um gênero de teatro digno no século 20. Nessa fase, Biscaia montou o Terror no Gabinete das Figuras de Cera e Reanimator.
A palavra peep vem de peep-show, os shows de strip-tease onde a stripper fica separada do cliente por um vidro. Peep, em dicionários inglês-português, significa espiar, olhar de soslaio, olhar por frestas, é o verbo condizente com a ação do voyeur.
Biscaia conta que foram observados todos os modus operandi (o padrão ritualístico dos crimes) dos serial killers. A lista dos matadores é considerável: Jeffrey Dahmer, o canibal de Milwaukee, que fazia experiências em suas vítimas injetando ácido sulfúrico em seus cérebros pouco antes de dar o golpe fatal. Myra Hindley e Ian Brady, neonazistas que gravavam os gritos de suas vítimas. Aileen Wournos, uma prostituta que matou seis de seus clientes com o eterno medo de ser espancada. John Gacy, um vizinho respeitado e palhaço nas horas vagas que estuprou e matou 33 garotos. Marcelo Costa de Andrade, um religioso fanático do Rio de Janeiro, que matou mais de 15 crianças com a nobre intenção de transformá-las em anjos. Richard Ramirez que esfaqueava suas vítimas enquanto dormiam em suas próprias camas. O russo Andrei Chikatilo que fez 52 vítimas.
Ele explica que só trabalhou com assassinos do século 20 porque é uma temática natural ao período.
O espetáculo é conduzido por Edward Gein, personagem real que inspirou o célebre assassino Norman Bates, de Psicose. Gein matou duas mulheres e exumou os corpos de dezenas. A partir dos cadáveres, fez uma série de objetos macabros, desde um colete feito de pele humana até uma tigela de sopa feita com um crânio. Apesar do pequeno número de vítimas em sua lista, Gein é autor dos mais hediondos atos na história da criminologia do século 20.
O diretor Gerald Thomas gravou, pelo telefone, narrações em off que serão inseridas durante o espetáculo. Biscaia trabalhou como assistente de direção de Thomas nas montagens de Nowhere Man e Os Reis do Iê, Iê, Iê.
PeeP (através dos olhos de um serial killer). De hoje a 30 de novembro, no Auditório Salvador de Ferrante (Guairinha). De quinta a sábado às 21 horas e domingo às 20 horas Ingressos: R$ 10,00; R$ 7,00 (com bônus) e R$ 5,00 (para a classe teatral e estudantes com carteirinha). Desaconselhável para menores de 16 anos.


