O filme ‘‘Terra do Mar’’, que estréia mês que vem em Curitiba, mostra o cotidiano de pescadores do litoral paranaense
DivulgaçãoCenas de ‘‘Terra do Mar’’, de Mirella Martinelli e Eduardo CaronSilvana Leão

Retrato fiel e cuidadoso de um povo que vive alheio às crises e problemas econômicos da virada do século, habitando locais esquecidos pela maioria dos governantes, o filme ‘‘Terra do Mar’’, de Mirella Martinelli e Eduardo Caron deve estrear em Curitiba no dia 23 do mês que vem. A fita é o resultado de seis semanas de filmagem em baías, ilhas e mangues de Paranaguá, Guaraqueçaba e Laranjeiras (litoral norte do Paraná) e baía de Cananéia (litoral sul de São Paulo).
Lançado no final de agosto nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, o documentário tem 81 minutos de duração e é narrado pelos próprios ilhéus. Aborda o trabalho e os costumes, as festas, a música e as crendices de pessoas que vivem da pesca artesanal, sem o conforto da eletricidade e são fortemente influenciadas pelas marés, pelo vento, pelo sol e pelas fases da lua. ‘‘O filme não foi feito com a preocupação de ser um panfleto, mas de proporcionar um entendimento mais profundo do ambiente em que vivemos, mostrando a recusa do homem às tradições e a perda da ancestralidade’’, informa Mirella Martinelli.
Segundo a cineasta, nas últimas três ou quatro décadas houve um corte abrupto nas relações humanas, com os moradores das grandes metrópoles perdendo o contato com suas raízes e com o ambiente a sua volta. ‘‘Terra do Mar’’ foi feito para este público urbano, que não tem a maioria das informações ali contidas. ‘‘Há muito o que aprender com o filme’’, garante Mirella. Ela revela que sua própria vida, assim como a do companheiro de filmagens Eduardo Caron, não foi mais a mesma depois da temporada vivida com o povo do mar. ‘‘Resgatamos valores que estavam esquecidos e o nosso centro enquanto animais. Foi uma experiência maravilhosa’’, define.
Por se tratar de um longa-metragem, a cineasta acredita que o público terá tempo de se ambientar e ‘‘entrar’’ na realidade ali retratada. ‘‘A maior parte das filmagens foi feita de dentro da água, o que dá a quem assiste a sensação de estar dentro de uma ilha.’’ A equipe de filmagem - formada por cinco pessoas - enfrentou a falta de eletricidade e as dificuldades no acesso às locações em mar aberto, atravessando a barra para documentar a quebrança ou aportando em ilhas distantes e praias desertas. Assim como a vida local, o cronograma, horários e locais de filmagem incorporaram as variações de maré, da lua e dos ventos.
‘‘O filme traz muita informação visual e verbal, coletada em profunda pesquisa e convivência com o lugar. Contudo, esta informação não é transmitida de forma jornalística, mas, sim, como resultado de um mergulho de alma na região’’, afirma Mirella Martinelli. A cineasta lembra que a população local tem uma interação diferente com o mundo, mais corpórea, sem tanta mediação, e o filme, segundo ela, passa essa sensibilidade. Homens, mulheres, crianças e velhos contam, em forma de conversa, diversos aspectos de suas vidas nas ilhas cercadas pelo mar. Estas informações foram editadas em ‘‘off’’ e, passando a palavra de uma pessoa para outra, entrelaçam-se compondo a narração do filme.
Há também falas dos ilhéus em forma de depoimento para a câmera. ‘‘A verbalização sobre traços e costumes de sua própria cultura é uma atividade que não faz parte do cotidiano daqueles pescadores’’, escreveram Mirella e Eduardo no material de divulgação do filme. Segundo eles, ao se deterem para pensar e contar sobre seu mundo, os próprios ilhéus se aperceberam de processos de transformação que estão ocorrendo em sua região, até então obscuros para eles.
‘‘Terra do Mar’’ filma o vento e a lua como personagens do mais alto poder presentes no cotidiano dos ilhéus. ‘‘Regentes dos mares e senhores do tempo, eles ameaçam a vida dos que navegam o oceano. Mas também são responsáveis por eventos como o movimento de cheias e vazantes das marés - determinante em cada tipo de pesca - e as correntes que trazem o peixe’’, afirmam os cineastas.
Além das atividades diárias voltadas para a subsistência, o longa-metragem mostra a cultura do povo ilhéu e pescador no que se refere à sua religiosidade e mitos. A romaria anual, que percorre as ilhas de barco tocando rabeca e viola, convidando os devotos para a festa do divino; o sermão baseado na Bíblia; a expressão da crença em figuras lendárias do mar, como a Sereia do Mar, Ogum Beira-Mar e o Sete-Ondas estão registrados ao longo do documentário, assim como a discórdia que surge entre os ilhéus quanto à tradição do trabalho.
As opiniões divergentes em relação à necessidade de passar para os filhos os ensinamentos da arte de capturar o peixe como se fazia antigamente é apenas um dos problemas vividos pela população da região, que ainda enfrenta a diminuição drástica na quantidade de peixes, causada pela pesca industrial, que mata também os peixes recém-nascidos. ‘‘Terra do Mar’’ aborda a questão da ecologia da região com depoimentos dos pescadores locais, mas o assunto permeia todo o filme, já que faz parte da vida dos ilhéus.
A montagem poética da fita foi valorizada pela trilha musical, composta por Mário Manga (do grupo Premeditando o Breque) e por Zé Gomes (parceiro de Almir Sater). Zé Gomes compôs e executou peças originais com instrumentos artesanais da região, como a rabeca, viola, bumbo e pandeiro. Mário Manga compôs e executou temas para piano, cello, flauta e violão, diversificando a musicalidade do filme. Toda a revelação e finalização de imagem de ‘‘Terra do Mar’’ foi realizada nos Estados Unidos, em laboratórios de Nova York e San Francisco.

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