Para comemorar a data da emancipação política de Curitiba, dia 19 de dezembro, será inaugurado amanhã no Memorial da Cidade um painel de autoria do curitibano Sérgio Ferro, contendo a história da cidade. A obra de 100 metros quadrados há mais de um ano foi encomendada ao artista pelo prefeito Rafael Greca.
Morando em Grignan, no sul da França, Sérgio Ferro é um dos mais renomados artistas brasileiros. Quando trabalhava no projeto, recebeu a visita do prefeito da cidade, Bruno Durieux, que se encantou pelo que viu. Mesmo com a pintura incompleta ‘‘ele praticamente exigiu que eu a expusesse à comunidade antes de embarcá-la para o Brasil’’.
A exposição foi preparada pelo próprio Durieux, que distribuiu por toda a cidade um convite aberto, no qual afirmava ser o painel ‘‘uma obra monumental, realizada na nossa cidade pelo grande pintor que vive há longo tempo entre nós’’. Menciona ainda outras obras de Ferro, como um mural para o Memorial da América Latina, em São Paulo.
‘‘Antes que esta obra-prima deixe definitivamente Grignan e vá para o Brasil, os habitantes de nossa cidade precisam contemplá-la’’. A exposição foi aberta no entardecer do dia 23 de novembro, com direito a coquetel.
Símbolos e mitos O painel foi realizado sobre várias telas de linho, pintadas com óleo e alquídia (um tipo de óleo sintético), que juntas formam uma grande tela maleável. Esta ocupará o teto e a parede de fundo de um espaço do Memorial da Cidade, chamado de Capela da Fundação. Ali estão dois altares originais da antiga Igreja Matriz de Curitiba.
‘‘Procurei retratar a história de Curitiba por meio de símbolos e mitos, e não por datas e fatos’’, detalha Ferro. A pintura do teto da capela, segundo o artista, lembra as primeiras atividades econômicas da região (a extração do ouro e madeira e o cultivo de chá e café), representadas por personagens. Ninguém em especial, seriam como figurantes de uma grande peça.
No teto da capela ainda estarão o índio Tindiquera e o Pelourinho, símbolos do nascimento de Curitiba. Para o espaço entre os altares, na parede atrás deles, o artista preparou uma imagem de Nossa Senhora da Luz, a padroeira de Curitiba, com o semblante alegre. ‘‘É a mãe que pensa na redenção de seu filho e não em seu sofrimento na cruz’’, explica.
Renascimento Sérgio Ferro costuma usar em suas obras citações de outros momentos históricos. ‘‘Para sairmos da nossa realidade e entrarmos em outra, no caso a da arte, precisamos às vezes de uma linguagem diversa do nosso cotidiano. Para a Capela do Memorial, achei que a forma de expressão do Renascimento seria a mais apropriada’’, conta o pintor. ‘‘É por isso que todos os personagens estão nus. O Renascimento valorizava as formas humanas’’.
Um exemplo está na figura do índio Tindiquera. Segundo o artista, a imagem lembra o Davi, de Michelângelo, não só na forma, mas na expressão de garra, de força e de conquista. Conta-se que foi Tindiquera quem escolheu o local onde seriam erguidas as ocas de sua tribo - que mais tarde daria origem à Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, hoje Curitiba.
O painel consumiu mais de um ano de pesquisas; a fase da pintura exigiu quatro meses de trabalho em período integral. Como a obra é de grandes dimensões o artista alugou um galpão especialmente para este fim. Para poder concluir o projeto dentro do previsto, cancelou duas exposições: uma em Paris e outra em São Francisco (Estados Unidos).
Em casa Obras públicas de Sérgio Ferro podem ser encontradas em várias cidades do mundo, mas estranhamente não havia nenhuma em Curitiba, lugar onde nasceu. Grenoble, localidade vizinha a Grignan, conta com três painéis, que vão de 50 a 200 metros quadrados, em suas praças. Outro está num jardim de Lyon. Telas de menor tamanho fazem parte do acervo permanente de museus no Brasil, na Grécia, Paraguai e na França.
Ferro conta que ficou emocionado quando o prefeito Rafael Greca lhe encomendou o trabalho. ‘‘Existe o lado sentimental, o de pintar a história de minha própria cidade para uma exposição permanente, e existe o lado cultural. Me engrandece colaborar com o Memorial da Cidade, obra que julgo fundamental para a preservação do passado e do presente de Curitiba’’, comentou. ‘‘É a memória que estabelece a continuidade entre o que passou e o que virá. Precisamos diariamente retomar o que fomos para definir o que seremos’’.

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