Paciência é característica indispensável para quem trabalha como figurante. Afinal, a espera pelo início de uma gravação costuma ser longa. E a chance de aparecer na televisão é quase nula. Mesmo assim, a figuração é peça fundamental para a grande maioria das produções teledramatúrgicas. Volta e meia, atrás dos atores principais de uma cena, há pessoas passando ou fingindo conversar, por exemplo. Tudo para trazer naturalidade à história.
Foi em busca de um take mais verossímil, inclusive, que Amora Mautner, diretora-geral de "Joia Rara", usou monges de verdade no Nepal, onde foi realizada parte das gravações da novela de Thelma Guedes e Duca Rachid. "Gravei momentos até neorrealistas, de nem ensaiar as pessoas e gravar como se fosse um documentário", explica ela, que também contou com outros 200 figurantes da região.
Quando uma novela viaja para gravar algumas sequências, é comum que se aproveite a própria população local para compor a figuração naquele momento. Mas, no dia a dia de uma produção televisiva, o que se percebe é uma grande heterogeneidade entre os figurantes. Os mais diferentes perfis de pessoas trabalham na área. Algumas estão ali porque ficaram desempregadas e viram na figuração uma solução temporária. Outras querem ver de perto os artistas e há também aposentados que complementam a renda e ocupam o tempo livre como figurantes. Além de aspirantes a ator, que ainda não conseguiram tirar o DRT – registro profissional que permite trabalhar com interpretação.
Tantas diferenças acabam influenciando, muitas vezes, no desenrolar das cenas. Em uma gravação de "Copa Hotel", seriado do GNT, a produção precisava de uma barraquinha de cachorro-quente e fez uma proposta para um vendedor que trabalhava naquele momento na praia. Mas esqueceu de avisar a ele quando a câmara foi ligada. "Nessa cena, eu tinha de andar até a barraca e pedir um lanche, mas o vendedor ficou desnorteado e, com um sorriso amarelo, falou: ‘Estou no meio de uma gravação’", recorda o nutricionista Victor Correa, que nunca havia feito figuração e aceitou porque, simplesmente, estava com a agenda tranquila no dia.
A imprevisibilidade envolvendo a figuração também acontece nos estúdios, apesar de ser um ambiente mais controlável. Certa vez, José Alvarenga Jr. precisou interromper uma gravação de "Separação?!" porque o celular de um figurante tocou. Por sorte, os trabalhos do dia ainda estavam no início. "O que vou fazer a não ser rir e continuar a gravação? Mas, se fosse no final, com todo mundo cansado, aposto que alguém iria se irritar bastante. Tudo pode acontecer no estúdio e é preciso estar preparado para isso", avalia o diretor.
Já em "Pecado Mortal", novela da Record, as muitas cenas de ação, comandadas por Alexandre Avancini, exigem da figuração uma movimentação maior e mais ágil. Mas foi em "José do Egito" que o diretor precisou "orquestrar" um número elevado de figurantes: 4 mil, no total. Durante as gravações no Deserto do Atacama, no Chile, Avancini aproveitou pessoas do local para algumas sequências. "Como são línguas latinas, o ‘portunhol’ funciona maravilhosamente bem", brinca.
Mas aqueles que têm o objetivo de ingressar na interpretação aproveitam a experiência na figuração para conhecer melhor um "set" de novela. E acreditam ser também uma oportunidade para estabelecer uma rede de contatos profissionais.
Alguns, no entanto, percebem que sofrem preconceito por terem trilhado esse caminho. Donni Rodrigues atualmente trabalha como ator, mas foi figurante durante um ano e meio, até conseguir o DRT. E já notou "olhares tortos" da produção, direção e até do elenco principal. "Mas acho que isso acontece porque existem dois tipos de figurantes: os que querem o cachê e os atores que estão buscando espaço. O primeiro exemplo, geralmente, não tem um comportamento exemplar ou regular e deturpa a imagem dos figurantes em geral", avalia.
Désirée Alves trabalhava como atriz de teatro, mas o que ganhava nem sempre era suficiente. Por isso, procurou a figuração e também conseguiu fazer pequenas participações na Globo. "Nos bastidores, é possível conhecer um vasto número de atores para troca de experiências, aprender na prática como as gravações acontecem e ganhar visibilidade para novos trabalhos", frisa ela, que, depois de concluir a faculdade de Publicidade, conseguiu um emprego e largou a interpretação.

Cachês entre R$ 50 e R$ 150
Apesar de ser uma chance de ver de perto o andamento de uma gravação, o "glamour" passa longe do trabalho de figurante. Uma diária de gravação, muitas vezes, dura 12 horas ou mais. E o cachê não é grande coisa: o líquido varia de R$ 50 a R$ 150. As agências que fazem a ponte entre as produções de tevê e a figuração ficam com 30% do valor oferecido pelas emissoras. "As pessoas acham que meu trabalho é diversão, mas é uma espécie de agência de emprego. Tem gente que fala que vai e não aparece, tem gente que vai só para ver os atores, tem gente que vai pelo cachê...", conta Fernando Agulha, dono da Agência de Modelos e Atores & Estúdio Fotográfico Fernando Agulha.
Um dos cachês mais altos é pago pela série "O Negócio", da HBO. "Como a produção quer mulheres bonitas usando lingerie, elas ganham R$ 420", revela ele, que, às vezes, precisa fazer um trabalho de campo. Para "A Mulher do Prefeito", por exemplo, foi até Barueri, em São Paulo, onde foram realizadas as gravações em um estádio, buscar possíveis figurantes que tivessem o perfil requerido pela produção. "Fiz uma pesquisa com a galera de lá. Éramos obrigados a usar as pessoas de Barueri porque o prefeito liberou o estádio", recorda Fernando.


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