Sílvio Andrade Especial para a Folha
A natureza reserva grandes surpresas quando se chega ao Taquari, onde está localizada a maioria dos aquários naturais. A primeira impressão, quando o barco percorre os filetes de água sem margem, adentrando o Pantanal da Nhecolândia submersa, é de morte da natureza. Uma ou outra ave surge ao longe num galho seco de um cambará ou de uma piúva sem vida. Aos poucos, o ambiente parece se recompor, reconstituindo as cores e formas de uma região única. Apesar da interferência do homem, o ambiente se adapta, de espécies terrestres para espécies aquáticas ou anfíbias. Uma capivara alegra os turistas, atravessando o rio. Logo adiante, um jacaré manso se deixa fotografar. Viva! Um tuiuiú!
O grupo de turistas - pescadores e alunos do curso de mergulho - saiu de barco do Porto da Manga, distante 63 quilômetros de Corumbá. A viagem até este local é feita de carro, pela Estrada-Parque, uma atração à parte, e também uma aventura. O pernoite é no hotel Soletur, que atende principalmente a pescadores amadores de São Paulo, Rio, Minas e Paraná. A saída para o rio se dá às 6 horas, com o visual maravilhoso: o despertar do dia sob um sol dourando as águas do rio Paraguai.
A viagem até aos aquários naturais demora de uma hora e meia a duas horas, em barcos com motor 35/40 HP, contra a correnteza forte. É preciso muita experiência dos piloteiros para encontrar os pontos marcados por Ricardo Kassar. O rio Taquari e seus afluentes mudam de curso da noite para o dia e os camalotes formam verdadeiros meandros aquáticos naquela imensidão de água e verde. As curvas radicais dos barcos por entre a vegetação aquática proporcionam uma sensação de leveza - e um frio na barriga.
A chegada é surpreendente, depois da parada obrigatória para as instruções e colocação dos equipamentos (máscara e roupa apropriada) em locais onde se atravessa o Taquari andando. Os aquários surgem à frente de forma maravilhosa, com até cinco metros de profundidade. A água transparente nos revela um novo mundo subaquático, destacando-se a areia branca, sinais de pedra, a vegetação exuberante e - claro - os seus habitantes naturais. -
Quando o Pantanal está cheio, a concentração dos cardumes é maior nos corixos por causa da alimentação farta (frutos e folhas). A pureza da água tem uma explicação: o baixo declive da planície favorece a sedimentação da areia, que ajuda a vegetação (aguapés e gramíneas) a filtrá-la.
Kassar escolheu a região conhecida como Palmeirinha, no baixo Taquari, para instruir o grupo e liberá-lo para os mergulhos e a caça. A pesca subaquática de forma controlada e respeitando as medidas das espécimes para captura é apenas uma consequência do passeio. O mergulhador conta que já identificou algumas espécies exóticas no Pantanal, como o piaparas, encontrado nos rios Amazonas e Tocantins. Os curimbatás se apresentam em cardumes. Um aluno observa um pintado enorme, de uns dez quilos. Outro se assusta: é um jacaré sonolento e inofensivo.
A médica Juliana Haddad, grávida de quatro meses, conseguiu aproximar-se de um cardume de curimbatás. ‘‘Parece que um novo mundo descortina à sua frente, quando lá fora sabemos que o rio Taquari está morrendo agonizado pelo assoreamento’’, conta. Mas o que deixou a principiante vislumbrada foi o contraste da areia branca depositada no fundo do corixo com a vegetação. ‘‘É um mundo fantástico!’’, diz.
Durante os mergulhos, os motores de popa são recolhidos para não espantar os peixes. Os barcos se movem com o remo ou acompanham o lento movimento das águas. O silêncio é um dos segredos para o êxito da caça. Kassar fisga dois pintados, ‘‘como demonstração’’. Ele explica que o pintado se esconde na vegetação e torna a caçada ainda mais deslumbrante.
O veterinário Marcelo Pereira fez o curso de mergulho há dois meses e se diz um apaixonado pelo esporte: ‘‘É difícil esquecer todo esse visual. Além de tudo, você limpa todo o estresse da semana’’. Ele não perde uma caça subaquática e já adquiriu todo o equipamento necessário para um mergulho seguro. ‘‘Agarrar o pintado no arpão é uma sensação incrível’’, diz.
Pescar de linhada nestes ambientes, impossível. Os peixes do Pantanal são acostumados com a água turva. Mas, a alguns metros dos aquários, num banhado mais sujo, um mergulhador fisga um pacu de 50 centímetros com isca de caranguejo. É ‘‘bater’’ na água e o peixe vem no anzol. Um pintado fisgado no arpão pelo garoto Rafael Oliveira, um dos alunos do grupo, foi para a panela e servido no almoço, na margem do rio Palmeira, regado a muitas histórias de pescador.
O retorno ao Porto da Manga foi à tardinha. E não há quem não queira voltar àquele paraíso no próximo fim de semana!


TOME NOTA
- Onde fica
Corumbá é a principal cidade do Pantanal de Mato Grosso do Sul, distante 420 quilômetros a oeste de Campo Grande. Tem 90 mil habitantes e as principais atividades econômicas são o turismo, a pecuária e a mineração. A cidade é o marco-zero do Gasoduto Brasil-Bolívia. A região fronteiriça oferece, ainda, as opções de compras nas feirinhas e nos shoppings localizados nas cidades bolivianas de Puerto Aguirre e Puerto Quijaro, distantes 5km do centro de Corumbá. A ‘‘Capital do Pantanal’’ tem uma excelente estrutura hoteleira e de serviços e oferece um leque de opções para quem a visita, como a pesca esportiva, passeios de barco pelo rio Paraguai (com peixada à bordo), safáris fotográficos, excursões ecológicas pela Estrada-Parque e hotéis-fazendas, passeios pela parte histórica da cidade - além de uma culinária muito rica e variada à base de peixe, como o pacu, pintado e dourado. Recentemente inaugurado, o Caiçaras é um restaurante-flutuante especialista em peixe ancorado no porto-geral.
- Como chegar
De carro, o referencial é Campo Grande, ponto de convergência de quem chega a Mato Grosso do Sul. É recomendável viajar bem cedo, partindo da capital, para se chegar ao Pantanal e a Corumbá, seguindo pela rodovia BR-262. Não é bom viajar à noite: a rodovia não tem acostamento (dentro da reserva) e há poucos serviços de apoio e socorro nos últimos 200 quilômetros, como borracharia, posto de combustível e mecânica. Mais: nesse horário, os bichos atravessam com frequência a pista em bando, podendo ser atropelados e provocar acidentes. A empresa Andorinha (opera em São Paulo, Mato Grosso, e Rio de Janeiro) mantém horários diários de ônibus, partindo de Campo Grande. Preços: 30,00 (executivo, com ar e serviço de bordo) e R$ 24,50 (convencional, com ar). A viagem dura seis horas. De avião, a opção é a TAM, com um vôo diário.
- Informações
Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (Sematur), telefones (067) 231-6996/231-6899. Ou pelo e-mail: [email protected]

mockup