Paris - A lista de personalidades que se pode visitar em um lugar bastante especial de Paris é de dar inveja: Oscar Wilde, Allan Kardec, Chopin, Honoré de Balzac, Edith Piaf, Marcel Proust, Sarah Bernhardt, Molière, Jim Morrison e pelo menos outras 80 celebridades do teatro, música, cinema e ciências. Pena que todos já estão mortos! Na verdade, o que se pode conhecer são os túmulos onde todos eles e milhares de outros anônimos estão enterrados: no cemitério Père Lachaise, o mais movimentado e visitado do mundo.
Pode parecer estranho, mas esse cemitério se tornou um ponto turístico badalado e está na lista de atrações de muitas, pra não dizer da maioria, das pessoas que visitam a capital francesa e procuram um roteiro alternativo. O lugar foi construído em 1804 sob ordens do então imperador Napoleão Bonaparte e era destinado às famílias de nobres e aristocratas franceses. A paixão despertada por Paris em alguns de seus mais célebres filhos e em outros também importantes moradores os fez escolher o Père Lachaise como último endereço.
Quase todas estas celebridades entre escritores, compositores, cantores, pensadores, cientistas e atores têm um túmulo sem muita ostentação. Às vezes, é até difícil localizar aqueles que se procuram. O sarcófago da atriz Sarah Bernhard (1844-1923), por exemplo, a mais célebre Dama das Camélias do cinema, quase passa despercebido. Ele fica no meio de um amontoado de lápides. O mesmo pode acontecer com o excêntrico vocalista da banda de rock The Doors. Jim Morrison (1944-1971) morreu aos 27 anos na banheira de um apartamento no centro de Paris.
Mesmo escondido, ele é um dos mais visitados e vigiado. Isso mesmo. Receosos com as possíveis extravagâncias dos fãs, o túmulo do roqueiro que ainda em vida deu muito trabalho à polícia é o único com guarda de plantão no cemitério. Parece engraçado, mas Morrison que vivia provocando os policiais em seus shows, agora tem a eternidade vigiada por eles. Além de fotografar e filmar o lugar onde o ídolo está enterrado, alguns fãs aproveitam o momento para prestar típicas homenagens como fumar um cigarro de maconha ou deixar ali algumas latas de cerveja.
As homenagens às celebridades enterradas no Père Lachaise são diversas e seus visitantes também chegam de todas as partes do mundo. Abraçado ao túmulo da cantora Edith Piaf (1915-1963), o russo Dima Borovkov, 27 anos, realizava um sonho embalado às canções da diva que tocavam em um pequeno gravador de bolso. ''Eu amo Edith'', repetia em seu francês carregado com o acento eslavo. Assim como Borovkov, muitos fãs visitam o cemitério para prestar suas homenagens simples ou irreverentes a seus ídolos, que muitas vezes morreram antes mesmo desses terem nascido.
No túmulo do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), o problema, segundo a família, são os beijos de batom que deixam marcas impossíveis de serem removidas da pedra esculpida em forma de um grande anjo. Cinco anos depois de escrever ''O Retrato de Dorin Gray'', Wilde foi condenado na Inglaterra a dois anos de trabalhos forçados por ''delito de homossexualismo''. Muito provavelmente quem deixa as marcas de batom no mausoléu são os fãs que o vêem como um símbolo do amor livre. Além dos beijos em batom, muitos deixam flores e bilhetes.
Um dos jazigos mais bonitos são os de Pierre Abélard e Héloise, protagonistas de um trágico romance interrompido na Paris medieval do século XII. O filósofo Abélard se apaixonou por Heloísa, 20 anos mais nova, de quem era tutor. Os dois tiveram um filho, Astrolábio, e se casaram em segredo. Quando o tio de Heloísa soube da história, enviou-a para um convento e mandou castrar Abélard, que foi viver na abadia de St. Denis. Mesmo distantes, eles se correspondiam, mas nunca mais se viram. Os dois só se reencontraram quase 700 anos depois, enterrados numa tumba em estilo neogótico.
Outro túmulo bastante visitado é o do fundador da filosofia espírita, o francês Allan Kardec (1795-1883). Placas orientam o visitante para que não cultue a imagem do religioso, passando a mão na lápide ou no busto que adorna o jazigo. Mesmo assim o desbotado do bronze e o olhar com a expressão de encantamento estampado no rosto de muitos denunciam a devoção, o respeito e a vontade de estarem mais próximos de Kardec e de sua sensibilidade.
Uma dica importante: antes de se aventurar pelas ruas e avenidas do cemitério, procure antes comprar um mapa com a localização dos principais túmulos. A placa que fica na entrada indica as direções, mas como o lugar é bastante grande fica difícil encontrar tudo o que se quer. Se preferir, confira de quem se trata os jazigos rodeados por pequenos grupos que for encontrando pelo caminho. Aproveite ainda para observar a riqueza de alguns dos mais de 70 mil túmulos que ornamentam o Père Lachaise. A entrada é franca.

mockup