Cemitério mostra tudo
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segunda-feira, 08 de julho de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O ator, autor e diretor Mário Bortolotto é um sujeito que não dorme. Foi outra vez arrastado pela maratona incansável de ensaios em São Paulo, onde estréia hoje a ''II Mostra de Teatro'' de seu grupo Cemitério de Automóveis.
A Mostra instala-se no Centro Cultural e segue até o final de setembro, sempre com dois espetáculos diferentes por noite. A peça inaugural é ''Medusa de Rayban'', uma sátira à banalização da violência urbana pelos meios de comunicação.
A temporada é comemorativa coincidindo com o aniversário de 20 anos da trupe. A primeira Mostra foi realizada há dois anos, com apresentação de quatorze peças e mais de quarenta atores envolvidos, rendendo a Bortolotto um Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pelo Conjunto da Obra e o Prêmio Shell de Melhor Autor de 2000 por ''Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet''.
Agora, ele retorna com quase o dobro do número de montagens e de elenco. ''Serão 26 espetáculos e 79 atores. Estou trabalhando dia e noite, quase não paro em casa. Durmo três ou quatro horas e já venho para cá'' diz ele, ao telefone, do porão do Centro Cultural São Paulo. O ciclo mescla peças inéditas e montagens já levadas ao palco, inclusive na Mostra anterior, caso entre outras de ''Éramos Todos Thunderbirds'', ''O Cara que Dançou Comigo'' e ''Nossa Vida não vale um Chevrolet''.
O dramaturgo assina a direção dos espetáculos, os textos e também adaptações de nomes da nova geração da literatura brasileira. De Marçal Aquino, ganhador do Prêmio Jabuti 2000, ele adaptou os contos do livro ''Faroestes''. Do polêmico Marcelo Mirisola, traz para o palco os contos do livro ''O Herói Devolvido''. Da revelação gaúcha Daniel Galera, recriou a obra ''Dentes Guardados''. E de Reinaldo Moraes, por fim, reedita o bem sucedido espetáculo baseado em seu romance ''Tanto Faz'' e que foi um dos destaques da Mostra 2000.
''A história do Cemitério de Automóveis é a de uma trajetória sem concessões'' salienta Bortolotto. ''Nunca, em nenhum momento de nossa carreira, fizemos algo para agradar com o objetivo de conquistar mais público ou conseguir patrocínio. Sempre fomos fiéis a nossos princípios. Tenho orgulho disso''. Inspirado na literatura beat e em autores como Charles Bukowsky e John Fante, o universo ficcional do autor povoou a cena com outsiders de todas as cepas.
A galeria de personagens desencantados e desajustados fascinou público e crítica. Criado em Londrina, o grupo trocou o norte do Paraná pela capital paulista em 1996. De lá para cá, seu fundador tornou-se referência nacional da nova dramaturgia. ''Todo reconhecimento é resultado do trabalho, uma consequência inevitável da combinação de talento e personalidade'' afirma ele.
Na nova temporada, o núcleo do Cemitério de Automóveis atuará na maioria das peças. Mas Fernanda D'Umbra, Joeli Pimentel, Aline Abovsky, Wilton Andrade, João Fábio Cabral e o próprio Bortolotto terão a companhia de um vasto contingente de atores convidados Zé Carlos Machado (Grupo Tapa), Jairo Matos, Milhem Cortaz, Marcelo Marcus Fonseca, Eucir de Souza, Rodrigo Matheus (Circo Mínimo), Laerte Mello (3 de Sangue), Paulo Federal (Os Charles), Raul Barreto (Parlapatões), Pedro Vicente, Henrique Stroeter, Jerusa Franco, Carla Candiotto e Alexandra Golik (Le Plat du Jour), João Signorelli, Fábio Espósito, Ana Andreatta, Guilherme de Freitas, Níveo Diegues, André Ceccato, Javert Monteiro, Ângela Dip, Rodrigo Lopéz, Nelson Peres e Lara Córdula.
Ao todo, 79 atores se revezarão em cena. A programação prevê a ''Semana dos Encenadores'', onde serão apresentados textos de Mário Bortolotto dirigidos por outros diretores ''Gravidade Zero'' (Elias Andreatto), ''Leila Baby'' (Jairo Mattos), ''Fica Frio'' (Marco Antônio Pâmio) e ''Hotel Lancaster'' (Marcos Loureiro).
A mostra ainda marcará a estréia do primeiro texto de Joeli Pimentel (integrante do Cemitério de Automóveis) ''Comprei um Trêsoitão e fui Brincar com Deus'' além de destacar a estréia na direção da atriz e produtora Fernanda D'Umbra (também integrante do Cemitério de Automóveis) com a pocket peça ''Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica'', uma adaptação sua para o texto de Adolar Gangorra.
Estão programados ainda uma exposição de fotos de Norberto Avelaneda e um novo vídeo-documentário captando imagens nos ensaios e durante a temporada, registrando a passagem do grupo pelo Espaço Cênico Ademar Guerra o ''porão'' do Centro Cultural. Atribulado com a Mostra, Mário Bortolotto ainda não pode relaxar para escrever o texto de uma ópera hip hop, calcada em fatos reais e cuja montagem colocará menores de rua de Londrina no palco.
Também não teve tempo para estudar o monólogo, de autoria de Maurício Arruda Mendonça, sobre os últimos dias de Jack Kerouac. Bortolotto foi convidado para encarnar o escritor beat no espetáculo, que terá direção de Fauzi Arap. A estréia está prevista para novembro em Londrina, juntamente com uma mostra de 10 peças do repertório da trupe.
SERVIÇO: II Mostra de Teatro do Cemitério de Automóveis. De 9 de julho a 29 de setembro de 2002. Sala Ademar Guerra Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000. Tel. (11) 3277-3611. Ingressos a R$ 5,00. Obs: em um dia na temporada de cada espetáculo será cobrado apenas o preço popular de R$ 1,00. Terça a sábado: 19 e 21 horas. Domingos: 18 e 20 horas.


